O Ministério da Fazenda reduziu a previsão oficial de crescimento da economia brasileira em 2026. Segundo o Boletim Macrofiscal divulgado pela Secretaria de Política Econômica (SPE), o Produto Interno Bruto (PIB) deve avançar 2% neste ano, abaixo dos 2,3% estimados anteriormente. A revisão ocorre em meio à desaceleração dos setores de serviços e indústria e à perda de força do crédito para famílias e empresas.
A nova projeção também trouxe uma redução na estimativa de inflação. O governo passou a prever IPCA de 4,9% em 2026, contra 5,1% na previsão anterior. Apesar da melhora, a taxa projetada permanece acima do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta de inflação.
Juros altos começam a pesar mais sobre a economia
A Fazenda atribui parte importante da desaceleração à chamada transmissão defasada da política monetária. Na prática, os efeitos de juros elevados sobre o consumo e os investimentos demoram para aparecer completamente na atividade econômica.
O comprometimento da renda das famílias chegou ao maior nível da série histórica no segundo trimestre, segundo o boletim. Com uma parcela maior da renda destinada ao pagamento de dívidas, o aumento da massa de rendimentos encontra mais dificuldade para se transformar em consumo.
O crédito também mostra sinais de perda de ritmo. A concessão de novos recursos acumula 11 meses consecutivos de recuo, de acordo com a SPE. O movimento é compatível com um ambiente de política monetária restritiva, no qual o custo do dinheiro permanece elevado e reduz a disposição de famílias e empresas para assumir novos financiamentos.
Indústria e serviços desaceleram
A revisão do PIB foi concentrada principalmente nos setores mais sensíveis às condições de crédito. A previsão de crescimento dos serviços caiu de 2,4% para 1,8%, enquanto a estimativa para a indústria passou de 2,1% para 1,7%.
A agropecuária apresentou movimento contrário e teve sua projeção elevada de 1,8% para 2,8%, compensando parcialmente a perda de ritmo dos demais setores. No segundo trimestre, o PIB brasileiro cresceu 0,5%, impulsionado pelo campo, enquanto indústria e serviços desaceleraram.
O mercado de trabalho, por outro lado, continua sendo apontado pela Fazenda como uma das principais sustentações da demanda doméstica. A manutenção do emprego ajuda a preservar a renda das famílias mesmo em um cenário de crédito mais restrito.
Petróleo acima de US$ 100 aumenta as incertezas
O cenário externo também passou a pesar nas projeções. Segundo a SPE, o preço do petróleo Brent superou US$ 100 por barril, enquanto a estimativa utilizada anteriormente para a média anual era de US$ 79.
A alta do petróleo pode pressionar a inflação diretamente por meio dos combustíveis e também aumentar custos de transporte e produção em diferentes setores. A Fazenda também citou a redução dos estoques internacionais e seus efeitos sobre os juros de longo prazo como fatores de risco para o cenário econômico.
A desaceleração da economia chinesa é outro ponto observado pelo governo. Para o Brasil, os efeitos são considerados mistos: uma atividade chinesa mais fraca pode reduzir o preço de máquinas e equipamentos importados, mas também diminuir a demanda por commodities brasileiras.
Projeção para 2027 também piorou
A revisão não ficou restrita a 2026. Para 2027, a Fazenda reduziu a previsão de crescimento do PIB de 2,5% para 2,3% e elevou a estimativa de inflação de 3,6% para 3,8%.
O governo relaciona parte dessa mudança a uma expectativa de redução dos juros mais gradual do que a prevista anteriormente. Para a inflação, também entram no cenário riscos climáticos, principalmente a possibilidade de um El Niño mais intenso, além de uma eventual reversão do ciclo pecuário, que poderia pressionar os preços das carnes.
As novas projeções mostram uma economia que ainda deve crescer em 2026, mas em ritmo menor do que o previsto anteriormente. Ao mesmo tempo, a inflação projetada melhorou, embora continue acima do limite superior da meta, enquanto famílias, empresas e setores mais dependentes de crédito enfrentam os efeitos acumulados das condições financeiras restritivas.

