A proibição das plataformas de apostas online autorizadas pelo governo federal foi seguida por uma rápida expansão no número de sites classificados como não autorizados. Levantamento da plataforma Bet Legal, em parceria com a empresa de cibersegurança Iron Security, identificou 415 novos domínios de apostas ilegais entre as 18h de 25 de setembro e as 19h10 de 27 de setembro. O número passou de 295 para 710 endereços, uma alta de 141% em aproximadamente dois dias.
O movimento ocorreu justamente após a publicação da medida provisória que determinou o encerramento das operações de apostas online alcançadas pela nova regra. O pico aconteceu em 26 de setembro, quando foram identificados 294 novos sites em apenas um dia. Dos 79 domínios identificados no dia 25, 56 surgiram depois das 18h, horário em que a proibição foi anunciada.
Mercado ilegal já movimenta bilhões
A expansão dos domínios ocorre em um mercado clandestino que já possui participação relevante nas apostas realizadas no país. Levantamento da LCA Consultores citado pela Veja estima que as plataformas ilegais tenham movimentado entre R$ 33 bilhões e R$ 43 bilhões por ano. A mesma pesquisa estima que os operadores clandestinos responderam por entre 38% e 44% das apostas online realizadas no Brasil no primeiro semestre de 2026.
Apesar do tamanho, a participação estimada do mercado ilegal ficou abaixo da registrada no levantamento anterior. Em 2025, a LCA havia calculado uma fatia entre 41% e 51%. Os números indicam que a regulamentação implementada anteriormente havia conseguido deslocar parte das apostas para empresas submetidas às regras brasileiras.
Bloqueio de sites não significa fim da operação
O principal desafio para as autoridades está na facilidade com que operadores podem trocar de endereço na internet. Um mesmo grupo pode utilizar diversos domínios, criar páginas espelho ou migrar sua operação para novos endereços depois que um site é bloqueado.
A própria metodologia do levantamento alerta que o número de domínios não corresponde necessariamente ao número de empresas ou operadores, já que uma mesma operação pode utilizar várias páginas. Entre janeiro e 22 de setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas havia encaminhado 57.691 endereços para restrição pela Anatel, segundo os dados citados pelo Poder360.
O Ministério da Fazenda informou, por sua vez, que mais de 78 mil domínios não autorizados já foram bloqueados no país. A estratégia de fiscalização também envolve o bloqueio do fluxo financeiro associado às operações consideradas irregulares.
O que acontece com os apostadores?
A migração para plataformas clandestinas é um dos principais pontos de preocupação no novo cenário. As empresas que operavam dentro do sistema regulado estavam sujeitas a regras de identificação dos usuários, mecanismos de jogo responsável, fiscalização e obrigações relacionadas à proteção do consumidor.
Nas plataformas ilegais, essas exigências podem não ser observadas. O UOL destaca que operadores clandestinos podem continuar utilizando novos domínios, redes sociais e aplicativos de mensagens para alcançar apostadores, dificultando o trabalho de fiscalização.
O cenário também cria uma mudança no fluxo de informações. Enquanto o mercado regulado permite ao poder público acompanhar determinados dados sobre usuários e movimentações financeiras, operações clandestinas tendem a oferecer menos visibilidade às autoridades.
Proibição muda o tamanho do mercado, mas não encerra a disputa
A quantidade de novos domínios identificados nos primeiros dias mostra que a retirada das plataformas autorizadas não elimina automaticamente a oferta de apostas pela internet. O governo federal terá de combinar bloqueio de endereços, fiscalização financeira e atuação contra novos operadores para tentar reduzir a atividade clandestina.
Ao mesmo tempo, ainda é cedo para saber quanto do mercado efetivamente desaparecerá e quanto poderá migrar para plataformas não autorizadas. O levantamento de 415 novos domínios representa uma fotografia dos primeiros dias após a medida e não permite, sozinho, determinar o comportamento do mercado nos próximos meses.
O cenário coloca um novo desafio para a fiscalização: não basta retirar uma plataforma do ar quando novos endereços podem surgir em sequência. A capacidade de interromper também os pagamentos e identificar os operadores será determinante para medir o efeito real da proibição sobre o mercado de apostas no Brasil.

