O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, voltou a criticar os Estados Unidos nesta segunda-feira (19), após uma nova onda de ataques russos com mísseis e drones atingir diversas regiões do território ucraniano.
Segundo o líder ucraniano, o país enfrentou outra madrugada de bombardeios sem receber alertas antecipados de seus parceiros internacionais. Zelenskyy também denunciou atrasos no envio de equipamentos militares considerados essenciais para a defesa nacional.
As declarações acontecem em meio ao agravamento das tensões diplomáticas entre Zelenskyy e o presidente americano, Donald Trump, que vem defendendo mudanças na política de Washington em relação à guerra e flexibilizando determinadas restrições econômicas contra a Rússia.
O governo americano, entretanto, contesta as acusações de interrupção deliberada do compartilhamento de inteligência com a Ucrânia.
Rússia lança mísseis e drones contra cidades ucranianas
O novo ataque russo atingiu instalações de energia, infraestrutura de transporte e áreas residenciais em diferentes cidades ucranianas.
De acordo com informações divulgadas pela agência Reuters, a ofensiva envolveu 16 mísseis balísticos e mais de 200 drones, espalhados por regiões como Kiev, Kharkiv, Dnipro e Odessa.
O balanço inicial apontou quatro civis mortos, além de danos a edifícios, instalações públicas e estruturas essenciais de abastecimento.
Mais de 500 mil residências foram afetadas por problemas no fornecimento de eletricidade, enquanto autoridades locais adotaram medidas emergenciais para restabelecer serviços.
Zelenskyy também relatou danos a uma unidade de saúde, uma escola, uma estação de metrô e prédios residenciais.
A ofensiva reforça a vulnerabilidade da infraestrutura ucraniana diante dos ataques aéreos, principalmente em um período no qual o país busca ampliar sua capacidade de defesa antimísseis.
Zelenskyy denuncia ausência de alertas antecipados
Um dos principais pontos levantados pelo presidente ucraniano é a falta de informações antecipadas sobre os lançamentos de mísseis russos.
Esses avisos são considerados fundamentais para o funcionamento dos sistemas de defesa aérea, pois permitem identificar ameaças e organizar respostas antes que os projéteis alcancem áreas habitadas.
Os Estados Unidos possuem sistemas avançados de satélites e monitoramento capazes de detectar lançamentos de mísseis balísticos.
A Ucrânia depende parcialmente dessas informações para complementar suas próprias capacidades de vigilância.
Segundo a CBS News, fontes ligadas às operações de inteligência levantaram dúvidas sobre possíveis restrições ao compartilhamento desses alertas.
No entanto, a existência de uma decisão americana deliberada para suspender os avisos permanece contestada pelas autoridades de Washington.
Ucrânia acusa EUA de atrasar fornecimentos militares essenciais
Além da questão dos alertas, Zelenskyy afirmou que determinados equipamentos e suprimentos militares acordados com parceiros internacionais ainda não chegaram ao país.
Segundo o presidente, existem compromissos políticos que não foram implementados pelas estruturas responsáveis pelas entregas.
Entre as principais necessidades ucranianas estão os sistemas de defesa aérea, especialmente os mísseis interceptadores utilizados pelas baterias Patriot, essenciais para enfrentar ataques de mísseis balísticos.
O governo ucraniano teme que atrasos nesses fornecimentos reduzam sua capacidade de proteger cidades, instalações energéticas e posições militares.
A situação se tornou mais delicada após relatos de que Washington poderia restringir determinadas formas de assistência caso a Ucrânia continuasse atacando refinarias russas.
Starlink e Starshield também entram na crise diplomática
Outro ponto de tensão envolve os sistemas de comunicação por satélite da empresa SpaceX, controlada pelo empresário Elon Musk.
Zelenskyy afirmou que restrições ao uso do Starshield, versão voltada a aplicações governamentais e militares, prejudicaram a operação de drones interceptadores ucranianos.
Esses equipamentos são utilizados para enfrentar drones russos de ataque, incluindo modelos de alta velocidade.
Uma reportagem da Reuters publicada em 15 de outubro, baseada em fontes americanas e ocidentais, apontou que uma determinação para limitar o serviço teria partido de integrantes do governo dos Estados Unidos.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que Washington tenha ordenado uma redução deliberada da capacidade do serviço.
O governo ucraniano, por sua vez, afirmou que ainda buscava esclarecimentos técnicos sobre a normalização do sistema.
Trump critica Zelenskyy e flexibiliza restrições à Rússia

O agravamento da relação ocorre depois que Donald Trump acusou publicamente Zelenskyy de não demonstrar disposição suficiente para encerrar a guerra.
O presidente americano também adotou medidas para permitir determinadas transações envolvendo diesel russo, como parte de sua estratégia para conter a elevação dos preços dos combustíveis.
Zelenskyy criticou a flexibilização, argumentando que a redução da pressão econômica sobre Moscou pode ampliar os recursos disponíveis para sustentar as operações militares russas.
Trump havia anunciado ainda um suposto cessar-fogo relacionado à infraestrutura energética dos dois países. Entretanto, nem Kiev nem Moscou confirmaram formalmente os termos do entendimento, e novos ataques foram registrados em seguida.
Rússia propõe negociações com EUA e China
Paralelamente aos confrontos, o governo do presidente russo Vladimir Putin discute novas possibilidades diplomáticas.
Segundo informações divulgadas pelo Wall Street Journal e repercutidas pela Reuters, Moscou apresentou a possibilidade de uma reunião envolvendo representantes da Rússia, dos Estados Unidos e da China.
A proposta foi discutida durante um telefonema entre Putin e Trump em 9 de outubro.
Autoridades ucranianas demonstraram preocupação com a possibilidade de negociações sobre o futuro do país sem participação direta de Kiev.
Até o momento, não há confirmação de um encontro trilateral nem de um acordo efetivo para interromper os combates.
Guerra continua sem perspectiva concreta de cessar-fogo
A invasão russa em larga escala, iniciada em fevereiro de 2022, já ultrapassou quatro anos e meio e continua provocando mortes, deslocamentos populacionais e danos à infraestrutura ucraniana.
Embora Washington e Moscou mantenham contatos diplomáticos, os bombardeios recentes demonstram que ainda não existe uma interrupção sustentada das hostilidades.
A Ucrânia insiste na necessidade de garantias de segurança e de continuidade da assistência internacional. A Rússia, por sua vez, afirma defender negociações que considerem suas exigências políticas e territoriais.
Enquanto prosseguem as divergências entre Trump e Zelenskyy, os novos ataques ampliam os desafios humanitários e militares enfrentados pela população ucraniana.

