O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a criticar as eleições presidenciais brasileiras nesta quinta-feira (29) e classificou o resultado como uma “grande vergonha para o povo do Brasil”. O republicano também afirmou que não tomou partido na disputa porque teria sido orientado pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, a não interferir no processo eleitoral.
Em conversa com jornalistas antes de embarcar para um compromisso político nos Estados Unidos, Trump disse que pretende conversar com Lula em breve, mas evitou confirmar se reconhece oficialmente a vitória do presidente brasileiro, reeleito no segundo turno de domingo (25).
“Eu assisti à eleição. Não tomei partido. Deixei como estava. Fui orientado a não tomar partido pelo presidente, o atual presidente”, declarou Trump.
Na sequência, o presidente americano voltou a questionar o pleito e utilizou o desempenho do mercado financeiro brasileiro após a votação como argumento para sustentar sua avaliação negativa.
“Quando vi o que aconteceu no Brasil, foi uma desgraça”, afirmou. Trump acrescentou que considerou a situação “muito vergonhosa para o Brasil”.
Lula havia pedido que Trump não interferisse nas eleições
A declaração do presidente americano faz referência a uma entrevista concedida por Lula à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, em setembro.
Na ocasião, o presidente brasileiro afirmou que havia pedido a Trump que os Estados Unidos não interferissem nas eleições do Brasil. Lula argumentou que a disputa presidencial deveria ser decidida exclusivamente pelos eleitores brasileiros.
O petista também destacou a importância das relações diplomáticas entre os dois países, que mantêm vínculos históricos há mais de dois séculos.
“É muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil”, afirmou Lula na entrevista.
O presidente brasileiro acrescentou que esperava reciprocidade entre os países, defendendo que o Brasil também não interferisse nas eleições americanas.
Na mesma conversa, Lula demonstrou preocupação com a possibilidade de interferência estrangeira por meio de inteligência artificial e mencionou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, por sua proximidade com integrantes do movimento bolsonarista. Naquele momento, porém, o presidente brasileiro ressaltou que se tratava de suspeitas.
Trump questiona eleição, mas não apresenta provas de fraude
As declarações desta quinta-feira ampliam uma sequência de manifestações críticas de Trump sobre a eleição brasileira.
Nos últimos dias, o presidente americano sugeriu que o processo eleitoral teria apresentado irregularidades e questionou aspectos da apuração e da organização da votação. Até o momento, porém, não apresentou provas que demonstrem fraude capaz de alterar o resultado.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Lula no segundo turno, realizado em 25 de outubro.
O petista recebeu aproximadamente 51,79% dos votos válidos, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve cerca de 48,21%.
Trump também mencionou a queda do mercado financeiro brasileiro após a divulgação do resultado. A reação dos investidores, entretanto, não constitui, por si só, evidência de irregularidade eleitoral.
Ao ser questionado sobre quem considera o vencedor legítimo da disputa, o presidente americano evitou responder diretamente.
Estados Unidos ainda não reconheceram oficialmente a vitória de Lula
Até a publicação das declarações, o governo americano não havia anunciado formalmente o reconhecimento da vitória de Lula nem divulgado uma mensagem oficial de congratulações ao presidente reeleito, segundo a cobertura da CNN Brasil.
Trump afirmou que pretende conversar com o brasileiro, mas não informou uma data para o contato nem esclareceu se a conversa terá como pauta o resultado eleitoral.
A postura contrasta com a de outros líderes internacionais que já cumprimentaram Lula pela vitória e manifestaram interesse em manter ou ampliar a cooperação com o Brasil.
A ausência de reconhecimento formal não significa, por si só, rompimento diplomático entre os dois países. No entanto, as declarações públicas do presidente americano acrescentam incerteza ao relacionamento bilateral neste início do novo mandato presidencial brasileiro.
Abin alertou para possibilidade de influência americana
A discussão sobre interferência estrangeira já estava presente no debate político brasileiro antes do segundo turno.
Em agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) encaminhou um relatório ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao TSE alertando para a possibilidade de influência dos Estados Unidos nas eleições de outubro.
Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, o documento identificou sinais de intensificação da pressão americana sobre o Brasil, com base na análise de documentos do governo dos Estados Unidos produzidos entre novembro de 2025 e maio de 2026.
O relatório mencionou uma possível escalada de pressão política e diplomática. A existência desse alerta, contudo, não comprova que tenha ocorrido interferência direta no resultado da votação.
As declarações recentes de Trump recolocam o tema no centro das discussões sobre soberania nacional, relações diplomáticas e respeito aos processos eleitorais.
Relação entre Brasil e Estados Unidos entra em novo momento
A expectativa de uma conversa entre Trump e Lula ocorre em um período de atenção sobre o futuro das relações entre Brasília e Washington.
Os dois países mantêm vínculos comerciais, diplomáticos e estratégicos relevantes, com interesses compartilhados em áreas como energia, tecnologia, segurança e comércio internacional.
A disposição de Trump para conversar com Lula indica que um canal de diálogo permanece possível, embora suas críticas à eleição demonstrem divergências sobre a avaliação do processo político brasileiro.
Lula, por sua vez, já declarou que espera manter uma relação respeitosa com o governo americano, sem abrir mão da autonomia política do Brasil.
O próximo contato entre os presidentes poderá esclarecer se as declarações recentes representam apenas uma manifestação pública de descontentamento ou se terão consequências concretas para a agenda bilateral.
Até lá, permanecem sem resposta duas questões centrais: quando ocorrerá a conversa entre os mandatários e se o governo americano reconhecerá formalmente a vitória de Lula.

