A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou uma redução significativa no número de casos suspeitos de Ebola registrados na República Democrática do Congo (RDC). Segundo os dados atualizados, o total caiu de 906 para 116 casos suspeitos até 31 de maio.
A revisão ocorreu após análises laboratoriais e investigações epidemiológicas que descartaram centenas de notificações inicialmente classificadas como suspeitas. De acordo com a OMS, muitos pacientes apresentavam outras doenças ou quadros febris sem relação com o vírus Ebola.
Apesar da redução, o surto continua sendo motivo de preocupação para autoridades sanitárias internacionais. Até o momento, foram confirmados 321 casos na RDC, incluindo 48 mortes. No vizinho Uganda, nove infecções foram confirmadas, com um óbito registrado.
As informações atualizadas foram divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante uma coletiva de imprensa realizada em Genebra.
Médicos afirmam que surto pode ter começado meses antes

Embora a redução dos casos suspeitos represente uma notícia positiva, profissionais que atuam diretamente no combate à doença afirmam que a situação continua delicada.
A organização humanitária International Rescue Committee (IRC) informou que o atual surto pode ter começado a se espalhar de forma silenciosa ainda em janeiro, vários meses antes da mobilização internacional ganhar força.
Especialistas temem que o atraso na identificação dos primeiros casos tenha permitido a disseminação do vírus em comunidades remotas e de difícil acesso.
A República Democrática do Congo já enfrentou diversos surtos de Ebola nas últimas décadas e possui experiência no combate à doença. No entanto, fatores como deslocamentos populacionais, conflitos armados e dificuldades logísticas continuam dificultando a resposta das autoridades sanitárias.
Desinformação dificulta rastreamento de contatos
Entre os principais desafios enfrentados pelas equipes médicas está a dificuldade para localizar pessoas que tiveram contato com pacientes infectados.
O médico Abdou Sebushishe, que atua com o International Medical Corps na cidade de Goma, afirmou que os profissionais conseguem identificar apenas cerca de um quarto dos contatos considerados prioritários para monitoramento.
Segundo ele, parte da população ainda demonstra resistência às orientações médicas e desconfiança em relação à existência da doença.
Em alguns casos, pessoas com sintomas optam por procurar curandeiros tradicionais ou tratamentos alternativos em vez de buscar atendimento em unidades de saúde.
Para os especialistas, esse comportamento favorece a disseminação do vírus e dificulta o controle da transmissão.
“Minha mensagem é que o Ebola é real”, afirmou o médico ao comentar os desafios enfrentados pelas equipes de campo.
Profissionais de saúde também estão entre as vítimas
Outro fator que preocupa as autoridades é o número elevado de profissionais de saúde infectados.
Segundo informações divulgadas por equipes médicas que atuam na região, aproximadamente 20% dos novos casos confirmados envolvem trabalhadores da área da saúde.
O dado evidencia os riscos enfrentados diariamente por médicos, enfermeiros e técnicos responsáveis pelo atendimento dos pacientes.
A exposição frequente ao vírus e a escassez de equipamentos de proteção individual aumentam a vulnerabilidade desses profissionais.
Sebushishe afirmou que muitas equipes continuam precisando de recursos básicos para reforçar a segurança durante o atendimento.
Entre as principais demandas estão máscaras, luvas, aventais e outros equipamentos indispensáveis para evitar novas infecções dentro dos hospitais e centros de tratamento.
Controle do surto pode levar meses
Apesar dos esforços em andamento, especialistas avaliam que o surto ainda está longe de ser controlado.
Segundo estimativas apresentadas por profissionais que atuam na linha de frente, podem ser necessários mais de seis meses para que a transmissão esteja totalmente sob controle.
O principal motivo é a velocidade com que novos casos continuam surgindo em comparação à capacidade atual de resposta.
Além da identificação de pacientes, as equipes precisam ampliar ações de rastreamento, vacinação, testagem e conscientização das comunidades.
Autoridades sanitárias também enfrentam dificuldades logísticas para alcançar áreas isoladas e regiões afetadas por conflitos armados, realidade comum em diversas partes do leste da República Democrática do Congo.
Sobreviventes trazem esperança
Em meio às dificuldades, profissionais de saúde destacam sinais positivos no combate à doença.
Nesta semana, cinco enfermeiros que contraíram Ebola enquanto atendiam pacientes receberam alta médica e foram declarados livres do vírus.
Os casos são considerados importantes porque demonstram avanços nos tratamentos disponíveis e reforçam a importância do diagnóstico precoce.
Um dos profissionais recuperados relatou que os primeiros sintomas começaram com mal-estar e episódios de vômito antes da confirmação da infecção.
Após semanas de tratamento, ele recebeu um certificado de sobrevivente durante uma cerimônia realizada por autoridades de saúde.
Os relatos dos profissionais recuperados têm sido utilizados para incentivar outras pessoas a procurar atendimento médico logo nos primeiros sintomas.
Diretor da OMS pede mais confiança na medicina
Durante visita à República Democrática do Congo, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou que ainda existem desafios importantes relacionados à testagem, tratamento e confiança da população nos serviços de saúde.
Segundo ele, a busca precoce por atendimento continua sendo um dos fatores mais importantes para aumentar as chances de sobrevivência dos pacientes.
Tedros ressaltou que os avanços obtidos nos últimos anos permitiram melhorar significativamente os índices de recuperação da doença quando o diagnóstico é realizado rapidamente.
O diretor-geral também reforçou a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura, equipamentos e treinamento de profissionais que atuam na linha de frente.
Ebola continua sendo uma das doenças mais letais do mundo

O Ebola é uma doença viral grave que provoca febre alta, hemorragias e falência de múltiplos órgãos em casos mais severos.
A taxa de mortalidade varia de acordo com a cepa do vírus e com a velocidade do tratamento, podendo ultrapassar 50% em alguns surtos.
Desde sua identificação na década de 1970, a doença já provocou milhares de mortes em diferentes países africanos.
Embora vacinas e tratamentos tenham avançado significativamente nos últimos anos, especialistas alertam que o controle de surtos ainda depende de uma combinação de diagnóstico rápido, rastreamento eficiente de contatos e confiança da população nas orientações médicas.
Enquanto a OMS comemora a revisão dos números e o aumento de casos recuperados, profissionais que atuam diretamente no Congo alertam que o desafio está longe de terminar. Para eles, a redução dos casos suspeitos é uma boa notícia, mas a prioridade continua sendo impedir que o vírus continue se espalhando em comunidades vulneráveis da região.

