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O Brasil tem montanhas?

O Brasil tem montanhas, sim: pelo novo Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR) do IBGE, formas de relevo com pelo menos 300 metros acima do entorno, topos aguçados e encostas íngremes são montanhas, e elas aparecem em 14 estados, de formações muito antigas e desgastadas pela erosão.

O Brasil tem montanhas?

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Durante décadas, uma pergunta dividiu geógrafos e geólogos: o Brasil tem montanhas ou só serras, morros e planaltos? Com o Pico da Neblina chegando perto dos 3 mil metros, a dúvida parecia estranha, mas existia. A resposta veio com o Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR), coordenado pelo IBGE: sim, o Brasil tem montanhas, e em pelo menos 14 estados.

Figura 1. Mapa das montanhas no Brasil

O que é uma montanha, afinal?

Pelo SBCR, montanhas são conjuntos de formas de relevo com pelo menos 300 metros de altura em relação às áreas vizinhas, topos aguçados e encostas íngremes. Ou seja, altitude sozinha não basta, a forma pesa muito.

Por isso o Monte Roraima, com 2.810 m, continua classificado como planalto: seu topo é aplainado. Pelo mesmo critério ficam de fora morros isolados, como o Pão de Açúcar (396 m) e o Pico do Cabugi (590 m), e o espigão da Avenida Paulista.

Contexto histórico: como chegamos até aqui

O debate começou em 2019, num congresso de geografia física em Fortaleza, quando a geógrafa Rosangela Botelho, do IBGE, apontou a falta de um sistema unificado de classificação do relevo. Formou-se então uma comissão com o IBGE, o Serviço Geológico do Brasil, a União da Geomorfologia Brasileira e universidades, reunindo cerca de 70 especialistas. Eles revisaram conceitos e conferiram as definições em campo, em expedições.

Na prática, o SBCR substitui um cenário em que coexistiam as classificações de Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Sáber e Jurandyr Ross. No primeiro nível (primeiro táxon), o relevo se divide em cinco formas: montanhas, planaltos, tabuleiros, planícies e superfícies rebaixadas. Esta última substituiu o termo “depressão”, considerado impreciso.

Contexto geológico: montanhas velhas, não ausentes

Por que se dizia que o Brasil não tinha montanhas? Porque se assumia que elas só se formariam em zonas de colisão de placas, como Andes, Alpes e Himalaia. O território brasileiro está no interior de uma placa, longe dessas bordas ativas.

Só que as montanhas brasileiras são muito mais antigas. Segundo o geólogo Celso Dal Ré Carneiro (Unicamp), há cerca de 480 milhões de anos o país teve cadeias tão altas quanto o Himalaia, desgastadas desde então pela erosão. As atuais resultam de vários processos, e a hipótese mais aceita é o soerguimento da litosfera por forças do manto. A ideia, aliás, não é nova: Aziz Ab’Sáber já a defendia nos anos 1970.

Onde estão

  • Rio de Janeiro: montanhas ocupam cerca de um terço do estado.
  • Bahia, Minas Gerais e Ceará: têm as maiores áreas.
  • Ceará: é o estado mais montanhoso do Nordeste, com os maciços de Meruoca, Baturité e Pereiro e as serras das Matas e do Machado.
  • Paraíba e Pernambuco: destacam-se a serra do Teixeira (Pico do Jabre, 1.208 m) e a serra do Triunfo (Pico do Papagaio, 1.260 m).
  • Mato Grosso do Sul: o Maciço do Urucum, em Corumbá, antes tido como planalto, virou a única montanha do estado.

Curiosidades

  • Ilhabela (SP) e a Ilha do Cardoso (Cananéia, SP) são inteiramente formadas por montanhas, segundo o SBCR.
  • A Serra do Mar recua para o oeste cerca de 1 cm a cada 100 anos, por causa da erosão.
  • O Urucum virou montanha ao ser visitado: de baixo parecia um platô, mas lá em cima os pesquisadores encontraram cristas.
  • A nova classificação não cria proteção legal automática, mas pode embasar futuras políticas de conservação.

Por que isso importa

Padronizar a terminologia evita que cada pesquisador use seu próprio vocabulário. A classificação também pode apoiar o turismo, a conservação da biodiversidade (as montanhas abrigam espécies únicas) e a prevenção de desastres, já que os deslizamentos se concentram nas encostas íngremes, como nas tragédias da Região Serrana do Rio, em 2011.

Fontes: Pesquisa FAPESP (abr/2026), IBGE (Agência de Notícias, jun/2026), Galileu, Diário do Nordeste, A União (PB).