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Juros altos fecham portas do crédito e travam investimentos da indústria brasileira

O custo elevado do dinheiro segue como principal barreira para empresas industriais que precisam financiar operações, máquinas e expansão. Pesquisa da CNI mostra que 76% das indústrias com dificuldade para obter crédito de curto ou médio prazo apontam os juros como um dos maiores entraves, enquanto a taxa de insucesso no crédito de longo prazo subiu para 37,2%.

Juros altos fecham portas do crédito e travam investimentos da indústria brasileira

Trabalhadores em uma movimentada oficina industrial · PEXELS

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O acesso ao crédito continua sendo um dos principais gargalos para a indústria brasileira. Mesmo com o início de uma trajetória de redução da Selic, o financiamento ainda chega caro às empresas, especialmente às pequenas e médias, que têm menos garantias e menor capacidade de negociação com os bancos.

A Sondagem Especial nº 107, da Confederação Nacional da Indústria, ouviu 1.701 empresas entre fevereiro e julho de 2026. Entre aquelas que encontraram dificuldades para contratar crédito de curto ou médio prazo, 76% citaram os juros elevados. Nas linhas com prazo superior a cinco anos, o percentual ficou próximo de 69%.

Crédito caro atinge diretamente o caixa das empresas

A restrição não afeta apenas projetos de expansão. Quase 60% das indústrias que buscaram crédito de curto ou médio prazo utilizaram os recursos principalmente para capital de giro, destinado a despesas recorrentes como fornecedores, insumos e folha de pagamento.

Até nas linhas de longo prazo, normalmente associadas a investimentos estruturais, o capital de giro apareceu como principal finalidade para 28,7% das empresas. Máquinas e equipamentos ficaram atrás, com 23,6%, enquanto obras e instalações responderam por 11,6%.

Esse comportamento mostra uma indústria que, em parte dos casos, precisa recorrer a financiamentos mais longos apenas para sustentar a operação corrente, reduzindo o espaço para modernização e ganho de produtividade.

Mais de um terço não consegue crédito de longo prazo

Entre as empresas que efetivamente procuraram financiamento de longo prazo, 37,2% não conseguiram contratar ou renovar os recursos. Em 2025, essa taxa era de 33%. No curto e médio prazo, o índice de insucesso subiu de 20% para 24,7%.

A dificuldade é maior entre empresas menores. No crédito de longo prazo, 48,2% das pequenas e 48,1% das médias não obtiveram o financiamento buscado. Entre as grandes companhias, o percentual foi de 29,9%.

Além dos juros, as exigências de garantias aparecem como outro obstáculo relevante. Elas foram citadas por 33,4% das empresas no crédito de curto e médio prazo e por 31,5% nas operações mais longas. A burocracia e os prazos de carência insuficientes também aparecem entre as dificuldades.

Custo do dinheiro continua elevado mesmo com queda da Selic

Em agosto de 2026, a taxa média do crédito livre para empresas estava em 24,2% ao ano, enquanto determinadas linhas de capital de giro alcançavam juros superiores a 40% ao ano. Ao mesmo tempo, o spread bancário permanecia elevado, ampliando a diferença entre a taxa básica e o custo final pago pelas empresas.

A CNI destaca que reduções na Selic não são transmitidas imediatamente às taxas cobradas no mercado. Além da política monetária, entram no preço do crédito fatores como risco, tributação, garantias e estrutura do sistema financeiro.

Menos crédito significa menos investimento

Para a indústria, financiamento de longo prazo é um dos principais instrumentos para ampliar fábricas, adquirir equipamentos, automatizar linhas de produção e incorporar novas tecnologias. Quando esses recursos ficam caros ou inacessíveis, projetos podem ser adiados ou cancelados.

Dados da própria CNI mostram que o problema afeta também margens e preços. Em consultas recentes, 57% das empresas projetaram redução da margem líquida, enquanto 35% indicaram intenção de elevar preços diante da pressão financeira.

Esse cenário ganha peso em um ambiente de competição internacional. Uma indústria que investe menos tende a renovar máquinas mais lentamente, ganhar menos produtividade e ter maior dificuldade para competir com empresas estrangeiras que conseguem financiamento em condições melhores.

O desafio, portanto, não se limita a reduzir a Selic. Para destravar investimento industrial, o Brasil também precisa melhorar as condições de financiamento, ampliar linhas de longo prazo e diminuir barreiras que fazem o crédito chegar caro justamente a quem precisa investir para produzir mais e competir melhor.