O Irã descartou nesta terça-feira (20) qualquer possibilidade de transferir seu estoque de urânio enriquecido para fora do território nacional, endurecendo sua posição nas negociações sobre o programa nuclear iraniano.
A declaração foi feita por Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional e ex-comandante da Guarda Revolucionária, durante um encontro com o chefe do Exército do Paquistão, marechal Asim Munir, em Teerã.
Segundo informações da televisão estatal iraniana, reproduzidas pela agência de notícias AFP, Rezaei afirmou que o país não aceitará enviar nem mesmo pequenas quantidades de material nuclear enriquecido ao exterior.
O posicionamento surge em um momento de tensão nas relações entre Teerã e Washington, enquanto autoridades internacionais tentam encontrar uma saída diplomática para a crise envolvendo o programa nuclear iraniano e os conflitos no Oriente Médio.
Irã considera urânio enriquecido uma riqueza nacional

Durante a reunião com Asim Munir, Rezaei defendeu que o material nuclear enriquecido pertence ao povo iraniano e deve permanecer sob controle do país.
O dirigente afirmou que o estoque possui importância estratégica e econômica, reiterando que sua utilização deve ocorrer dentro do território nacional.
A declaração representa uma posição rígida diante das discussões internacionais sobre a destinação do urânio enriquecido acumulado pelo Irã.
A eventual transferência desse material para outro país é uma das alternativas discutidas historicamente em negociações destinadas a limitar riscos de proliferação nuclear.
Entretanto, o governo iraniano sustenta que possui o direito de desenvolver atividades nucleares para finalidades pacíficas e rejeita medidas que considere uma violação de sua soberania.
Teerã condiciona negociações a medidas dos Estados Unidos
Além de descartar a retirada do urânio, Mohsen Rezaei afirmou que o Irã não pretende retomar negociações enquanto os Estados Unidos não adotarem medidas concretas para reconstruir a confiança entre os países.
A posição ocorre em meio às tentativas de mediação internacional para reduzir a tensão regional.
Entre as exigências iranianas discutidas nas últimas semanas estão a retirada de restrições às exportações de petróleo, o fim do bloqueio americano a portos iranianos e medidas para interromper hostilidades na região.
Washington, por outro lado, mantém preocupações sobre o enriquecimento de urânio e busca compromissos verificáveis relacionados às atividades nucleares de Teerã.
A divergência sobre a sequência dessas concessões continua sendo um dos principais obstáculos à retomada das negociações.
Paquistão tenta mediar crise entre Irã e Estados Unidos
A visita de Asim Munir ao Irã faz parte dos esforços diplomáticos do Paquistão para aproximar Washington e Teerã.
O comandante militar também participou de encontros com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e com outras autoridades políticas.
O Paquistão desempenhou papel importante nas tentativas de negociação realizadas ao longo de 2026, incluindo discussões sobre a segurança marítima no Golfo Pérsico e a reabertura do Estreito de Ormuz.
Uma tentativa anterior de entendimento entre Estados Unidos e Irã, formalizada em junho, perdeu força após a retomada das hostilidades.
Agora, Islamabad busca restabelecer canais diplomáticos e encontrar condições para uma possível redução das tensões militares.
Por que o urânio enriquecido preocupa a comunidade internacional?
O enriquecimento de urânio é um processo que aumenta a concentração do isótopo urânio-235, utilizado como combustível em determinados reatores nucleares e também associado à produção de armas atômicas.
O material pode ter aplicações civis, como geração de eletricidade e pesquisas científicas, mas níveis elevados de enriquecimento aumentam as preocupações com sua possível utilização militar.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) acompanha os programas nucleares dos países e verifica o cumprimento de compromissos internacionais de não proliferação.
O Irã já produziu urânio enriquecido a 60%, nível significativamente superior ao normalmente utilizado em usinas nucleares comerciais e próximo, em termos técnicos, do patamar de aproximadamente 90% associado ao urânio de grau militar.
A existência de material altamente enriquecido, entretanto, não comprova por si só a fabricação de uma arma nuclear.
Estoques nucleares estão no centro das negociações
A destinação do urânio iraniano é considerada um dos temas mais delicados das negociações internacionais.
Em maio de 2026, a Reuters informou que, antes dos ataques contra instalações nucleares iranianas, a AIEA havia contabilizado aproximadamente 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60%.
Os bombardeios e as restrições às inspeções dificultaram a verificação posterior da localização e das condições de parte do material.
Por isso, organismos internacionais defendem mecanismos de fiscalização que permitam confirmar a finalidade pacífica das atividades nucleares.
A posição anunciada por Rezaei reduz, neste momento, a possibilidade de um acordo baseado na transferência do estoque para outro país.
Crise nuclear também afeta o mercado mundial de petróleo
O impasse acontece em meio à instabilidade no Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio internacional de petróleo e gás natural.
As tensões militares e os ataques contra embarcações na região aumentam os riscos de interrupções no abastecimento mundial de energia.
Nesta terça-feira, os preços internacionais do petróleo continuaram elevados, enquanto investidores acompanhavam a possibilidade de avanços diplomáticos nas conversas entre Irã e Paquistão.
Impasse permanece sem perspectiva de acordo imediato
A declaração de Mohsen Rezaei representa mais um obstáculo às tentativas de entendimento entre Irã e Estados Unidos.
De um lado, Teerã exige medidas de confiança, alívio das restrições econômicas e respeito às suas condições. De outro, Washington mantém exigências relacionadas à segurança regional e ao controle do programa nuclear iraniano.
Até o momento, não há anúncio de um novo acordo nem confirmação de retomada formal das negociações nucleares.
A continuidade da mediação paquistanesa poderá ajudar a manter os canais de diálogo abertos, mas a divergência sobre o destino do urânio enriquecido permanece sem solução.

