A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), provocou reações de governos e lideranças internacionais nesta quarta-feira (4). O resultado, que garantiu aos democratas o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, representa uma mudança no equilíbrio político americano e poderá influenciar questões diplomáticas, comerciais e militares.
No Irã, autoridades interpretaram a derrota dos republicanos do presidente Donald Trump como uma manifestação de insatisfação dos eleitores com a guerra no Oriente Médio e com seus efeitos sobre o custo de vida.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que os americanos enviaram uma mensagem contrária ao conflito. Já o líder supremo do país, aiatolá Mojtaba Khamenei, demonstrou ceticismo sobre possíveis mudanças na política externa de Washington.
As reações também se estenderam à Europa, Rússia e Ásia, onde autoridades passaram a avaliar como a nova composição do Congresso poderá afetar as relações internacionais.
Irã afirma que eleitores disseram não à guerra
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, utilizou a rede social X para comentar as eleições americanas.
Ghalibaf, que também atua como negociador nas conversas com Washington, afirmou que o resultado representa uma rejeição à continuidade do conflito militar.
Na publicação, escreveu que os americanos disseram “não à guerra”, seja por consciência política, seja pelos impactos econômicos.
O dirigente também advertiu o governo americano contra novos ataques ao território iraniano.
A declaração representa a interpretação política de uma autoridade de Teerã. Embora pesquisas indiquem preocupação dos eleitores com a guerra e a inflação, o resultado eleitoral não pode ser atribuído exclusivamente a uma única questão.
Líder supremo iraniano não espera mudança na política americana
Diferentemente do tom adotado por Ghalibaf, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, demonstrou cautela quanto às consequências da vitória democrata.
Em uma declaração escrita publicada nesta quarta-feira, Khamenei afirmou que a alternância entre democratas e republicanos não garante mudanças na posição dos Estados Unidos em relação ao Irã.
Para o líder iraniano, a política americana mantém características de hostilidade independentemente de qual partido ocupe posições de poder.
Ele também advertiu que eventuais novas operações militares contra seu país poderão provocar uma resposta de maior intensidade.
A diferença entre as manifestações demonstra duas avaliações presentes no governo iraniano: o reconhecimento do desgaste eleitoral de Trump e a desconfiança de que a mudança no Congresso seja suficiente para alterar a estratégia americana.
Guerra com o Irã e alta dos combustíveis pesaram no debate eleitoral
O conflito começou em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã.
Desde então, a guerra provocou instabilidade regional, afetou o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz e contribuiu para o aumento dos preços internacionais da energia.
O encarecimento dos combustíveis tornou-se uma preocupação para consumidores americanos e ampliou as críticas à condução da política externa de Trump.
As eleições ocorreram em um contexto de insatisfação econômica, envolvendo também inflação, tarifas comerciais e despesas familiares.
Apesar da vitória democrata, Trump permanece na Presidência e conserva atribuições relevantes na condução das relações exteriores e das operações militares.
Espanha vê resultado como sinal de enfraquecimento da direita populista
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, relacionou a vitória democrata nos Estados Unidos à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.
Em publicação nas redes sociais, Sánchez afirmou que eleitores americanos rejeitaram políticas associadas ao aumento da pobreza, ao discurso de ódio, ao machismo e ao negacionismo climático.
O líder espanhol também declarou que o mesmo movimento político poderá ocorrer na Espanha, onde estão previstas eleições antecipadas em 29 de novembro.
Sánchez classificou o resultado americano como parte do enfraquecimento de uma onda internacional de direita radical. Trata-se de uma interpretação política do primeiro-ministro, não de uma tendência eleitoral já comprovada em outros países.
Rússia admite dificuldades nas relações com Washington
A reação da Rússia foi mais cautelosa.
O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, afirmou que setores do Partido Democrata mantêm posições desfavoráveis às relações com Moscou.
Para o diplomata, o fortalecimento dos democratas no Congresso poderá tornar mais complexas algumas iniciativas diplomáticas entre os dois países.
Ryabkov, entretanto, ressaltou que a política externa russa não será alterada automaticamente em razão dos resultados eleitorais americanos.
A avaliação ocorre em meio às negociações relacionadas à guerra na Ucrânia e às divergências sobre sanções internacionais e segurança europeia.
Outros governos acompanham mudanças no Congresso
Na Europa, representantes políticos demonstraram expectativa de que a nova maioria parlamentar possa ampliar o apoio americano à Ucrânia e à cooperação ambiental.
O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, afirmou que o resultado indica uma mudança nas posições de parte do eleitorado americano.
Já autoridades do Japão e da China defenderam a continuidade dos canais diplomáticos e das relações estratégicas com Washington, independentemente da composição do Congresso.
Na África do Sul, o presidente Cyril Ramaphosa afirmou que a votação poderá abrir uma nova etapa nas relações internacionais.
Nova maioria pode influenciar a política externa, mas Trump continua presidente
Segundo as projeções da CBS News, os democratas garantiram o controle das duas casas do Congresso a partir de janeiro de 2027.
No Senado, o partido e seus aliados tinham pelo menos 54 cadeiras projetadas na manhã desta quarta-feira, enquanto outras disputas permaneciam sem definição.
A mudança poderá afetar a aprovação de orçamentos, a fiscalização das operações militares e a análise de indicações feitas pelo Executivo.
Entretanto, Donald Trump continuará exercendo a Presidência, incluindo suas atribuições constitucionais em política externa.
Por isso, as reações internacionais combinam expectativas de mudanças com cautela. No caso do Irã, a vitória democrata foi recebida como um sinal de insatisfação dos eleitores americanos, mas não como garantia do encerramento do conflito.

