A Petrobras recebeu autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar três novos poços exploratórios na Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. A medida permite que a estatal avance na avaliação da descoberta feita recentemente na região e tente determinar o tamanho e a viabilidade comercial da acumulação de petróleo.
A decisão ocorre poucos dias depois de novas informações sobre as características do óleo encontrado no poço Morpho. Amostras analisadas pela Petrobras indicam um petróleo leve, com características comparáveis às encontradas em áreas produtoras da Guiana, segundo informações divulgadas por O Globo.
A qualidade do petróleo é um dos fatores que aumentam a expectativa em torno da descoberta. Quanto mais leve é o óleo, em geral, maior tende a ser o aproveitamento de derivados de maior valor e mais simples pode ser seu processamento nas refinarias.
Ibama libera novas perfurações
A autorização do Ibama representa uma nova etapa da campanha exploratória da Petrobras na região. Os três poços adicionais serão utilizados para obter mais informações sobre a descoberta e ajudar a delimitar a extensão do reservatório.
A licença estabelece condições para a continuidade da atividade. A Petrobras terá de apresentar um cronograma atualizado de perfuração ao Ibama no prazo de 30 dias, além de manter atualizada a análise de riscos ambientais do projeto.
A nova autorização, entretanto, não significa que a Petrobras já tenha autorização para produzir petróleo comercialmente na área. A empresa ainda precisa confirmar o volume recuperável e verificar se a exploração pode ser economicamente viável.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, já havia afirmado que, caso a descoberta seja considerada comercialmente viável, a produção poderá começar em até sete anos.
O que torna o petróleo encontrado diferente
As primeiras análises apontam que o óleo encontrado no Amapá possui características de petróleo leve. A classificação está relacionada à densidade do produto, medida pelo grau API.
Petróleos mais leves costumam apresentar maior fluidez e podem gerar uma proporção maior de derivados considerados nobres, como gasolina, diesel e querosene de aviação. Também tendem a exigir menos processos de transformação nas refinarias.
A Petrobras informou que o óleo encontrado a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá apresenta características semelhantes às do Brent, uma das principais referências internacionais do mercado de petróleo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a chamar o produto de “petróleo chique” durante uma visita à região. Apesar do entusiasmo com a qualidade do óleo, a própria Petrobras ressalta que ainda é necessário dimensionar a acumulação e confirmar sua viabilidade comercial.
Margem Equatorial ganha força como nova fronteira
A descoberta está localizada na Margem Equatorial, uma faixa do litoral brasileiro que se estende pelo Norte e Nordeste e inclui áreas consideradas promissoras para exploração de petróleo e gás.
A região ganhou atenção adicional por sua proximidade geológica com áreas produtoras da Guiana. O país vizinho vem desenvolvendo grandes campos offshore, aumentando o interesse da indústria pelas formações existentes na região.
Especialistas ouvidos pela CNN Brasil avaliam que a autorização das novas perfurações representa um passo importante para determinar se a descoberta poderá dar origem a uma nova área produtora. Estimativas citadas pela publicação apontam potencial de até 30 bilhões de barris para toda a Margem Equatorial, mas esse número ainda é uma projeção e não corresponde a reservas comprovadas.
Um estudo da Confederação Nacional da Indústria também estima que uma eventual exploração da Margem Equatorial poderia gerar 495 mil empregos, acrescentar R$ 175 bilhões ao Produto Interno Bruto e proporcionar entre R$ 3,6 bilhões e R$ 5,4 bilhões em royalties por ano. Esses valores são projeções e dependem da confirmação das reservas e da produção.
Descoberta ainda precisa ser dimensionada
Apesar dos sinais positivos, a Petrobras ainda está em uma etapa exploratória. A existência de petróleo já foi confirmada no poço Morpho, mas ainda não é possível determinar quanto poderá ser efetivamente produzido.
Os novos poços terão justamente a função de ampliar o conhecimento sobre a área. Além das características do óleo, os estudos precisam avaliar as rochas do reservatório, a extensão da acumulação e as condições necessárias para uma eventual produção.
A profundidade também representa um desafio. A perfuração ocorre em águas ultraprofundas, com cerca de 2.886 metros de lâmina d'água no local da descoberta, além da camada de rocha abaixo do fundo marinho.
Exploração continua cercada por questões ambientais
A expansão da atividade ocorre em uma região ambientalmente sensível e historicamente marcada por discussões sobre o licenciamento da exploração de petróleo.
A autorização do Ibama exige a atualização das análises de risco e ocorre depois de um vazamento de fluido registrado durante uma perfuração anterior na região. O episódio provocou preocupação e passou a integrar as discussões sobre a segurança das operações.
O Ministério Público Federal também questionou informações apresentadas pelo Ibama sobre o planejamento e a duração das atividades exploratórias. O órgão apontou divergências entre declarações feitas em audiência judicial e documentos administrativos relacionados à campanha de perfuração.
A Petrobras agora terá pela frente uma nova fase de estudos. A autorização dos três poços permitirá reunir mais dados sobre a descoberta e poderá definir se o petróleo encontrado na Foz do Amazonas representa o início de uma nova fronteira de produção no Brasil.
Por enquanto, o que está confirmado é a existência de petróleo no poço Morpho e a autorização para ampliar a campanha exploratória. O tamanho da possível reserva e sua viabilidade econômica ainda dependem dos próximos resultados.

