A França enfrenta uma grave crise de segurança pública após um fim de semana de protestos violentos, saques e confrontos com a polícia. Nesta segunda-feira (19), o governo francês recomendou que autoridades locais adotem toques de recolher em áreas consideradas críticas, numa tentativa de conter novos episódios de violência.
Segundo o Ministério do Interior, aproximadamente 2.400 pessoas foram detidas, quase mil policiais ficaram feridos e um manifestante morreu durante os distúrbios registrados em várias regiões do país.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que o governo está determinado a restabelecer a ordem, mas descartou, por enquanto, a imposição de um toque de recolher em toda a capital, Paris.
A crise ocorre em meio à insatisfação popular com o aumento do custo de vida, a deterioração dos serviços públicos e as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país.
Governo considera toque de recolher e não descarta estado de emergência
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu defendeu medidas de segurança direcionadas às regiões mais atingidas pelos confrontos.
Segundo ele, os toques de recolher deverão ser limitados a determinados locais e períodos, evitando restrições generalizadas à circulação da população.
O governo também não descartou a possibilidade de decretar estado de emergência caso a violência continue.
A cidade de Marselha, no sul do país, já adotou restrições a aglomerações e manifestações.
O prefeito socialista Ariel Weil, responsável por uma região central de Paris, também manifestou apoio à adoção de toque de recolher.
As medidas pretendem evitar novos episódios de vandalismo e proteger estabelecimentos comerciais, edifícios públicos e moradores.
Quase 3 mil lojas foram atingidas pelos tumultos
A Federação do Comércio e Varejo da França informou que quase 3 mil estabelecimentos comerciais foram afetados pelos episódios de violência.
Em Paris, vitrines de lojas de luxo foram danificadas na região da Place Vendôme, conhecida por reunir marcas internacionais e hotéis de alto padrão.
Estabelecimentos de empresas como Dior, Rolex, Louis Vuitton, Gucci e Ralph Lauren registraram danos.
Em Marselha, a loja oficial do clube de futebol Olympique de Marseille também foi saqueada.
Na cidade de Limoges, um incêndio atingiu o prédio histórico da prefeitura, ampliando a preocupação das autoridades com os ataques a edifícios públicos.
Representantes do comércio solicitaram medidas emergenciais de apoio financeiro e alívio tributário às empresas prejudicadas.
Macron rejeita renúncia do ministro do Interior

O presidente francês Emmanuel Macron recusou o pedido de demissão apresentado pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez.
A decisão foi anunciada após críticas à atuação das forças de segurança durante os confrontos.
Macron determinou que o ministro concentre esforços na recuperação da ordem pública e esclareça possíveis falhas na inteligência e na preparação policial.
Embora cerca de 60 mil agentes tenham sido mobilizados no sábado, as forças de segurança não conseguiram impedir os saques e a destruição em diferentes cidades.
Prefeitos de Paris, Marselha e Lyon criticaram a resposta das autoridades nacionais, afirmando que determinadas áreas ficaram sem proteção adequada.
O governo reconheceu dificuldades operacionais e prometeu rever os procedimentos de segurança.
Governo atribui parte da violência a grupos de extrema esquerda
Sébastien Lecornu responsabilizou grupos de extrema esquerda por parte dos confrontos, acusando integrantes desses movimentos de tentar ampliar a instabilidade política.
O líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon contestou as declarações e exigiu a apresentação de provas.
Os protestos começaram em meio à insatisfação de estudantes e trabalhadores com as condições dos serviços públicos, o custo de vida e os preços dos combustíveis.
É importante distinguir as manifestações pacíficas, protegidas pelo direito de protesto, dos episódios de violência e depredação investigados pelas autoridades.
Os sindicatos franceses anunciaram uma nova mobilização nacional para 5 de novembro, indicando que a tensão social poderá continuar nas próximas semanas.
Instabilidade política também preocupa investidores
A onda de violência atingiu os mercados financeiros franceses nesta segunda-feira.
O euro perdeu valor diante do dólar, enquanto ações de empresas francesas e títulos públicos sofreram pressão.
A turbulência ocorre em um momento de baixo crescimento econômico, aumento da dívida pública e discussões sobre o orçamento nacional.
A crise também amplia as dificuldades políticas enfrentadas pelo governo Macron, a aproximadamente seis meses da eleição presidencial francesa de 2027.
França mantém eventos e reforça alertas a turistas
Apesar da instabilidade, o governo informou que a partida da Liga dos Campeões entre Paris Saint-Germain e Barcelona, prevista para terça-feira (20), será mantida.
Diversos países europeus recomendaram que cidadãos em viagem à França evitem manifestações, aglomerações e áreas próximas a confrontos.
Na capital francesa, protestos estudantis também provocaram interrupções em instituições como o Museu do Louvre e a universidade Sciences Po.
Enquanto isso, Macron iniciou uma viagem ao Kuwait para discutir o fornecimento de combustíveis e buscar alternativas para aliviar os preços da energia.
O governo francês enfrenta agora o desafio de restabelecer a segurança, preservar o direito às manifestações e responder às reivindicações econômicas que deram origem aos protestos.

