O estado de São Paulo registrou aumento de 30,5% nos casos de feminicídio entre janeiro e abril de 2026, segundo dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). No período, foram contabilizados 107 assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero, contra 82 ocorrências registradas nos mesmos meses de 2025.
Os números reforçam a preocupação das autoridades com a violência contra a mulher e mostram que, apesar da redução de outros indicadores criminais, os feminicídios seguem em trajetória de crescimento no estado mais populoso do país.
O feminicídio é caracterizado quando uma mulher é assassinada em razão de sua condição de gênero, geralmente em contextos de violência doméstica, relações afetivas abusivas, discriminação ou menosprezo à condição feminina.
Os dados indicam que a alta foi impulsionada principalmente pelo aumento dos casos registrados em municípios do interior paulista.
Interior lidera avanço dos casos
Enquanto a capital paulista e a Região Metropolitana apresentaram queda nos registros, o interior do estado registrou crescimento expressivo.
Segundo a SSP, os feminicídios nas cidades do interior saltaram de 45 para 77 ocorrências entre janeiro e abril, representando um aumento de 71,1%.
Na capital, o número de casos caiu 26,1% em comparação com o mesmo período do ano passado. Já na Grande São Paulo, a redução foi de 7,1%.
A concentração do aumento fora dos grandes centros urbanos chama atenção de especialistas e autoridades de segurança, que buscam identificar fatores específicos relacionados ao crescimento da violência de gênero em municípios menores e regiões afastadas da capital.
O avanço dos casos no interior também contribuiu decisivamente para o resultado estadual registrado nos primeiros quatro meses do ano.
Abril apresentou estabilidade
Apesar do crescimento acumulado no quadrimestre, os dados mostram que abril apresentou relativa estabilidade.
Foram registrados 20 feminicídios no estado durante o mês, contra 21 ocorrências contabilizadas em abril de 2025.
Embora o número não represente aumento em relação ao mesmo período do ano anterior, os índices permanecem elevados e demonstram que a violência letal contra mulheres continua sendo um desafio para as políticas públicas de proteção e prevenção.
Organizações que atuam na defesa dos direitos das mulheres frequentemente destacam que o feminicídio costuma representar o estágio final de um ciclo de violência que muitas vezes começa com ameaças, agressões psicológicas, violência física e perseguição.
Por esse motivo, especialistas defendem o fortalecimento de mecanismos de denúncia e proteção para impedir que situações de risco evoluam para crimes mais graves.
Homicídios de mulheres caíram no período
Enquanto os feminicídios apresentaram crescimento, outro indicador relacionado à violência letal contra mulheres registrou redução.
Os homicídios femininos que não foram enquadrados como feminicídio caíram 18,5% no estado. O número passou de 65 casos registrados entre janeiro e abril de 2025 para 53 ocorrências no mesmo período deste ano.
A diferença entre os dois indicadores está na motivação do crime. Nem toda mulher assassinada é vítima de feminicídio. Para que o enquadramento ocorra, é necessário que a investigação identifique relação direta entre o assassinato e a condição de gênero da vítima.
Os dados demonstram que a violência letal contra mulheres apresenta comportamentos distintos dependendo das circunstâncias que envolvem cada crime.
Estado registra menor número de homicídios da série histórica
Apesar da alta dos feminicídios, os indicadores gerais de criminalidade apresentaram resultados positivos em outras áreas.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública, São Paulo registrou o menor número de homicídios para um primeiro quadrimestre desde o início da série histórica, em 2001.
Entre janeiro e abril deste ano foram contabilizados 807 homicídios dolosos, contra 838 ocorrências registradas no mesmo período de 2025. A redução foi de 3,7%.
Os casos de latrocínio, que correspondem a roubos seguidos de morte, também apresentaram queda significativa.
O número passou de 51 para 31 registros, representando uma redução de 39,2% em comparação com os quatro primeiros meses do ano passado.
Os dados mostram que, embora a violência letal em geral esteja em queda, o feminicídio continua seguindo uma trajetória distinta.
Governo amplia rede de proteção às mulheres
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que o combate à violência contra mulheres, crianças e adolescentes permanece entre as prioridades da atual gestão estadual.
Segundo a pasta, o estado vem ampliando estruturas especializadas para acolhimento, atendimento e proteção das vítimas.
Atualmente, São Paulo conta com 144 Delegacias de Defesa da Mulher distribuídas pelo território estadual. Além disso, existem 220 Salas DDM destinadas ao atendimento remoto e mais de 650 policiais especializados nesse tipo de ocorrência.
O governo também informou a implantação de Salas Lilás em unidades do Instituto Médico Legal para oferecer atendimento humanizado às vítimas de violência.
Novas medidas foram implementadas
Entre as ações mais recentes anunciadas pelo governo estadual está a criação da Patrulha SP Mulher Segura, iniciativa da Polícia Militar voltada ao acompanhamento de vítimas e ao monitoramento de medidas protetivas.
O programa deverá contar com 101 viaturas exclusivas distribuídas em diferentes municípios até o final de 2026.
Outra iniciativa destacada pela SSP é o aplicativo SP Mulher Segura. Segundo o governo, a ferramenta já possui cerca de 64 mil usuárias cadastradas, mais de 2,5 mil boletins de ocorrência registrados e aproximadamente 16,6 mil acionamentos do botão do pânico desde sua criação.
O estado também ampliou o monitoramento eletrônico de agressores, alcançando cerca de 1,3 mil pessoas investigadas ou condenadas por violência doméstica.
Casas da Mulher Paulista continuam expansão
Outro eixo da política estadual envolve a ampliação das Casas da Mulher Paulista, centros voltados ao acolhimento, orientação jurídica, apoio psicológico e encaminhamento de vítimas.
Segundo a SSP, 20 unidades já foram inauguradas e outras 16 estão em fase de construção.
O governo também destaca programas de auxílio financeiro para mulheres em situação de vulnerabilidade. Entre eles está o auxílio-aluguel destinado a vítimas de violência doméstica, benefício que já alcançou aproximadamente 4,6 mil mulheres desde 2025.
Apesar dos investimentos em prevenção e proteção, os dados do primeiro quadrimestre mostram que o enfrentamento ao feminicídio continua sendo um dos maiores desafios da segurança pública paulista.
Os números revelam que, embora o estado apresente avanços na redução de diversos crimes, a violência de gênero segue exigindo atenção especial das autoridades e da sociedade para evitar que mais mulheres sejam vítimas da forma mais extrema de violência.

