Os Estados Unidos e a Venezuela anunciaram um acordo energético de longo prazo que pode transformar a indústria petrolífera venezuelana e aprofundar a aproximação entre Washington e Caracas. O pacto terá duração de 25 anos e prevê o desenvolvimento de 17 campos estratégicos, com uma meta inicial de produção superior a 1,5 milhão de barris de petróleo por dia.
O acordo foi anunciado pelo presidente americano Donald Trump e posteriormente detalhado pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Trump afirmou que os Estados Unidos garantiram controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas comprovadas venezuelanas por meio de parcerias com empresas privadas. Rodríguez, porém, declarou que a Venezuela continuará mantendo a propriedade e a soberania sobre seus recursos naturais.
A diferença entre as duas versões está entre os principais pontos de dúvida em torno do pacto. Os governos ainda não divulgaram todos os detalhes sobre como será estruturada a participação americana, quais empresas estarão envolvidas e como serão distribuídas as receitas geradas pela produção.
O que prevê o acordo
Segundo Rodríguez, o projeto bilateral terá como objetivo recuperar a produção de petróleo venezuelana e envolve 17 campos considerados estratégicos. A meta inicial é superar 1,5 milhão de barris por dia exclusivamente dentro do acordo entre Venezuela e Estados Unidos.
O plano também prevê o desenvolvimento de oito novos blocos de petróleo, ampliando a área de exploração para além dos campos incluídos na primeira etapa. A presidente interina afirmou que a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla para recuperar o setor energético venezuelano.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas sua produção atual está muito abaixo do potencial histórico do país. Segundo dados citados pela Reuters, a produção venezuelana está em aproximadamente 1,25 milhão de barris por dia, depois de anos de falta de investimentos, problemas de gestão e sanções.
O acordo pretende justamente utilizar capital, tecnologia e capacidade operacional estrangeira para recuperar uma indústria que perdeu capacidade produtiva.
Trump afirma que EUA terão controle sobre reservas
Trump apresentou o acordo de forma diferente da versão divulgada por Caracas. O presidente americano afirmou que Washington garantiu o controle majoritário de mais de 65 bilhões de barris das reservas comprovadas de petróleo da Venezuela.
Segundo Trump, o controle será obtido por meio de parcerias com empresas privadas e não representará custos para os contribuintes americanos. O presidente também afirmou que parte do petróleo venezuelano será utilizada para reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos.
A reserva estratégica americana possui atualmente cerca de 290 milhões de barris, o menor nível em décadas. Trump afirmou que o petróleo venezuelano começará a ser utilizado para recompor os estoques "muito em breve".
Ainda não está claro, porém, quanto petróleo poderá efetivamente chegar aos Estados Unidos nem quando a produção venezuelana terá capacidade para atingir os níveis previstos no acordo.
A infraestrutura petrolífera da Venezuela precisa de investimentos significativos para aumentar a produção. Por isso, os efeitos do pacto sobre o fornecimento americano não devem ser imediatos.
Venezuela diz que mantém soberania sobre o petróleo
Delcy Rodríguez tentou afastar a interpretação de que o acordo representa uma transferência da propriedade dos recursos venezuelanos para os Estados Unidos.
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, ela afirmou que a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre seu petróleo. Segundo a presidente interina, o país pretende utilizar capital, tecnologia e experiência operacional estrangeira para recuperar o setor sem abrir mão da titularidade dos recursos naturais.
Rodríguez também afirmou que aproximadamente US$ 19 de cada barril produzido e vendido dentro do acordo irão diretamente para o governo venezuelano.
A presidente estima que o projeto poderá gerar cerca de US$ 204 bilhões em receitas tributárias para o Estado. Em outra estimativa divulgada anteriormente, o valor chegou a aproximadamente US$ 209 bilhões, considerando um preço de referência de US$ 65 por barril.
Os valores, entretanto, dependem da produção efetivamente alcançada e dos preços internacionais do petróleo.
Acordo gera dúvidas dentro da Venezuela
Apesar das expectativas de recuperação econômica, o acordo também provocou desconfiança entre parte da população venezuelana. O principal questionamento está relacionado à quantidade de informações que os governos divulgaram sobre os termos da negociação.
A agência AFP ouviu venezuelanos que demonstraram dúvidas sobre quem será o principal beneficiário do aumento da produção. O Partido Socialista Unido da Venezuela, que está no poder, reafirmou apoio à decisão. Também ocorreram manifestações em Caracas contra a presença americana no país.
Analistas citados pela AFP avaliam que a entrada de investimentos pode ajudar a recuperar a indústria, mas os resultados dependerão da forma como o acordo será executado.
A recuperação também não deverá acontecer rapidamente. Um especialista ouvido pela agência estimou que o aumento significativo da produção poderá levar pelo menos três ou quatro anos.
Petróleo aproxima Washington e Caracas
O acordo representa uma mudança significativa na relação entre Estados Unidos e Venezuela. Durante anos, os dois governos estiveram em lados opostos, principalmente por causa das políticas adotadas durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Agora, o petróleo passou a ocupar o centro da nova relação entre Washington e Caracas.
Para os Estados Unidos, o acordo pode ampliar o acesso a uma grande fonte de petróleo e ajudar a recompor suas reservas estratégicas. Para a Venezuela, a expectativa é utilizar investimentos estrangeiros para recuperar uma indústria que perdeu capacidade produtiva e aumentar as receitas do Estado.
A Venezuela também abriu seu setor energético ao capital privado nos últimos meses, enquanto Washington flexibilizou parte das sanções que afetavam a indústria petrolífera venezuelana.
O resultado final, porém, dependerá da implementação do acordo. Os detalhes sobre controle, investimentos, distribuição das receitas e participação das empresas ainda não foram completamente divulgados.
Por enquanto, o pacto estabelece uma meta ambiciosa de recuperação da produção venezuelana e coloca o petróleo no centro de uma nova fase das relações entre Estados Unidos e Venezuela.

