Em 7 de março de 2026, Donald Trump reuniu doze chefes de Estado latino-americanos em seu resort de golfe em Doral, na Flórida, para lançar oficialmente o Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma coalizão militar e de segurança apresentada pela Casa Branca como resposta ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional. O anúncio, formalizado pela chamada Declaração de Doral, também instituiu a Coalizão Anticartéis das Américas e criou o cargo de Enviado Especial dos Estados Unidos para o Escudo das Américas, responsável por coordenar a cooperação diplomática e militar entre Washington e os governos aliados.
Quem está dentro
Treze países integram o núcleo fundador da coalizão, contando os Estados Unidos: Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Bahamas e Belize assinaram uma declaração conjunta de segurança em uma reunião preparatória, mas ficaram fora da cúpula principal uma adesão parcial que os posiciona como parceiros de segundo grau na arquitetura da coalizão.
Figura 1. Mapa dos países integrantes do escudo das Américas

O mapa desse agrupamento revela um padrão nítido: são majoritariamente governos alinhados ideologicamente à direita e à agenda de Washington, caso de Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador e Daniel Noboa no Equador três lideranças que, segundo reportagens sobre a origem da iniciativa, já vinham articulando apoio político, financeiro e militar junto à equipe de transição do segundo governo Trump antes mesmo da posse. Trump chegou a afirmar, na semana do lançamento, que representantes de 17 nações teriam aderido à aliança, número que a imprensa regional não confirmou de forma independente o que sugere sobreposição entre compromissos formais, adesões preliminares e simples manifestações de interesse.
Os grandes ausentes
O dado geopoliticamente mais relevante da cúpula de Doral não é quem compareceu, mas quem não foi convidado ou não aceitou o convite. Brasil, México e Colômbia, as três maiores economias e populações da América Latina, ficaram de fora da coalizão. Trump chegou a dizer, dias depois, que "achava" que esses países tinham sido convidados, mas que talvez não tivessem aceitado participar uma ambiguidade que por si só já indica o desconforto diplomático em torno da exclusão.
Os motivos variam por país, mas convergem em um ponto: resistência ao alinhamento automático com a política externa e militar americana. O governo brasileiro mantém uma tradição de não-alinhamento e autonomia estratégica, com postura historicamente crítica ao intervencionismo militar estrangeiro na região algo incompatível com o desenho da coalizão, que prevê que os Estados-membros solicitem diretamente assistência militar dos EUA para atingir infraestrutura de cartéis e rotas de tráfico em seus próprios territórios. México e Colômbia, apesar de serem protagonistas centrais em qualquer discussão hemisférica sobre narcotráfico, também permaneceram fora do grupo inicial.
Essa ausência tem um efeito estrutural: ela limita o alcance real da coalizão. Um arranjo de segurança regional que não inclui as três maiores potências da América Latina dificilmente pode ser descrito como verdadeiramente continental é, antes, um bloco de alinhamento seletivo.
O que está em jogo por trás do discurso antidrogas
Oficialmente, o Escudo das Américas nasce para "erradicar os cartéis criminosos" Trump comparou a iniciativa à coalizão internacional formada contra o Estado Islâmico no Oriente Médio. Na prática, os documentos e falas da cúpula deixam entrever um objetivo geopolítico mais amplo: conter a influência de China e Rússia no hemisfério, competidores que a Casa Branca chama de "adversários de fora do Hemisfério".
Isso se traduz em compromissos concretos. O Paraguai, por exemplo, já aprovou acordos que permitem livre circulação de tropas e equipamentos militares americanos em seu território, além de assegurar que militares dos EUA em missão respondam apenas à Justiça do próprio país um traço típico de acordos de status de forças (SOFA). A coalizão também mira setores estratégicos como tecnologia 5G, energia e infraestrutura portuária, áreas em que empresas chinesas vêm ganhando espaço na última década. Ao padronizar protocolos militares, de inteligência e de infraestrutura entre os países aliados, Washington busca reconstruir sua posição de parceiro preferencial na região um papel que avalia ter perdido nos últimos vinte anos.
Há ainda uma dimensão de segurança unilateral que preocupa analistas: o governo americano reserva-se o direito de agir militarmente de forma independente sempre que perceber uma "ameaça iminente", mesmo fora do arcabouço coletivo da coalizão. Autoridades americanas confirmaram que, apesar da preferência por ação conjunta com os signatários da Declaração de Doral, os Estados Unidos estão preparados para atuar sozinhos quando julgarem necessário o que reacende, para críticos, memórias de décadas de intervencionismo militar direto na América Latina.
Um mapa de alianças em disputa
O Escudo das Américas expõe, mais do que uma resposta ao narcotráfico, uma disputa por influência geopolítica no continente. De um lado, um bloco de doze países mais os Estados Unidos, concentrado em governos de direita na América Central, Andina e no Caribe. De outro, os três gigantes regionais Brasil, México e Colômbia que optaram por manter distância, resguardando margem de manobra diplomática frente a Washington, Pequim e Moscou. O resultado é um mapa fragmentado, no qual a cooperação em segurança hemisférica caminha lado a lado com o realinhamento geopolítico global entre grandes potências.
Fontes: Casa Branca, Departamento de Estado dos EUA, Agência Brasil, Gazeta do Povo, Brasil de Fato, The Conversation Brasil, Centro de Estudios de la Academia de Guerra (Chile).

