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Desaceleração da economia fica mais clara e Banco Central mantém cautela com os juros

Atividade econômica perdeu força nos últimos meses, enquanto juros elevados continuam pressionando o crédito e o consumo. Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas sinalizou que os próximos passos dependerão da evolução dos dados e da inflação.

Desaceleração da economia fica mais clara e Banco Central mantém cautela com os juros

Presidente do Banco Central Gabriel Galípolo · PAULO PINTO/AGÊNCIA BRASIL

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A desaceleração da economia brasileira ganhou contornos mais claros nas últimas semanas. Indicadores recentes apontam perda de ritmo em setores importantes, enquanto o Banco Central avalia que os efeitos da política monetária restritiva continuam sendo transmitidos para o crédito, o consumo e a atividade econômica. A avaliação aparece tanto nas comunicações do governo quanto nos documentos recentes do Comitê de Política Monetária (Copom).

O movimento ocorre em um momento no qual o Copom já iniciou um processo de redução da taxa básica de juros. Em setembro, o comitê cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, na quinta redução consecutiva. Apesar do corte, o Banco Central afirmou que os juros continuam em nível restritivo e que a condução da política monetária seguirá dependendo das novas informações sobre a economia.

Juros altos começam a aparecer com mais força na atividade

A ata da reunião de setembro aponta uma moderação gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo de juros. O documento ressalta, ao mesmo tempo, que a economia continua resiliente e que o mercado de trabalho permanece aquecido.

Os números divulgados pelo Ministério da Fazenda seguem a mesma direção. A projeção oficial para o crescimento do PIB em 2026 foi reduzida de 2,3% para 2%. A estimativa para os serviços caiu de 2,4% para 1,8%, enquanto a previsão para a indústria passou de 2,1% para 1,7%. A agropecuária, por outro lado, teve a projeção elevada de 1,8% para 2,8%.

Segundo a Secretaria de Política Econômica, parte da perda de ritmo está relacionada à transmissão defasada dos juros elevados sobre a demanda doméstica. O comprometimento da renda das famílias também atingiu o maior nível da série histórica no segundo trimestre, dificultando que o aumento da renda se transforme integralmente em consumo.

Crédito e consumo entram no radar

O mercado de crédito é outro ponto de atenção. A Fazenda informou que as concessões de novos recursos acumulam 11 meses consecutivos de recuo, enquanto o Banco Central vem observando uma desaceleração das concessões em algumas modalidades.

Durante uma apresentação do Relatório de Política Monetária, o presidente do Banco Central também chamou atenção para o nível de inadimplência e para ofertas de crédito consideradas excessivamente caras. A autoridade monetária avalia medidas para limitar operações consideradas inadequadas para determinados consumidores.

O cenário cria um efeito conhecido na economia: juros elevados tornam financiamentos mais caros, reduzem a disposição para assumir novas dívidas e podem adiar decisões de consumo e investimento. Esse processo, porém, ocorre com defasagem, razão pela qual os efeitos de uma política monetária restritiva podem continuar aparecendo mesmo depois de iniciado o ciclo de cortes.

Banco Central evita antecipar próximos cortes

Apesar dos sinais de desaceleração, o Banco Central não indicou uma trajetória pré-determinada para a Selic. Na ata, o Copom afirmou que o ambiente permanece marcado por incerteza elevada, expectativas de inflação acima da meta e riscos no cenário, defendendo cautela na condução da política monetária.

Em declaração recente, o presidente do BC afirmou que as expectativas sobre os próximos cortes vêm se movimentando conforme os dados econômicos são divulgados. A avaliação reforça a estratégia de observar a evolução da inflação, da atividade e das condições financeiras antes de definir os próximos passos.

Economia desacelera, mas ainda não parou

A fotografia atual é de uma economia que continua crescendo, mas em ritmo menor. No segundo trimestre, o PIB avançou 0,5%, enquanto indústria e serviços perderam força. O mercado de trabalho ainda funciona como uma sustentação importante da demanda, mas o aumento do endividamento e o enfraquecimento do crédito podem limitar esse impulso nos próximos trimestres.

Ao mesmo tempo, permanecem riscos externos, como a alta do petróleo e as incertezas relacionadas ao cenário internacional. Para o Banco Central, o desafio é equilibrar o processo de redução dos juros com a necessidade de garantir a convergência da inflação para a meta.

Assim, os próximos meses serão marcados por uma combinação de juros ainda elevados, crédito mais restrito e atividade econômica menos acelerada, enquanto o Banco Central acompanha se a desaceleração será suficiente para permitir novos cortes da Selic sem comprometer o controle da inflação.