A população de Cuba enfrenta uma grave crise humanitária, marcada por apagões prolongados, falta de medicamentos, aumento dos preços dos alimentos e dificuldades para receber salários e aposentadorias. O cenário foi documentado em reportagem publicada nesta sexta-feira (16) pela rede norte-americana CBS News, que acompanhou a rotina de moradores da capital, Havana.
O agravamento da situação ocorre em meio ao endurecimento do embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba e às restrições ao fornecimento de petróleo impostas pelo governo do presidente Donald Trump.
As medidas buscam pressionar politicamente o governo cubano, mas seus efeitos também atingem diretamente a população, especialmente famílias de baixa renda, idosos e pacientes que dependem do sistema público de saúde.
Além das sanções, Cuba enfrenta problemas estruturais acumulados, incluindo uma rede elétrica envelhecida, baixa disponibilidade de combustíveis e dificuldades de produção e importação.
Apagões deixam moradores com poucas horas de eletricidade
A crise energética tornou-se um dos principais problemas enfrentados pelos cubanos.
Segundo a reportagem da CBS News, moradores de diferentes regiões do país, incluindo Havana, recebem energia elétrica durante apenas algumas horas por dia. Em determinadas localidades, os períodos sem fornecimento são ainda maiores.
A falta de combustível compromete o funcionamento das usinas termelétricas, responsáveis por parte importante da geração de eletricidade.
Em setembro, a rede elétrica cubana sofreu mais um colapso de grandes proporções, deixando milhões de pessoas sem energia. Foi a sexta interrupção nacional registrada desde o endurecimento das restrições americanas ao petróleo, em janeiro.
Os apagões também prejudicam o bombeamento de água, o armazenamento de alimentos, os transportes e os serviços hospitalares.
![]()
Hospitais enfrentam falta de medicamentos essenciais
A situação também preocupa profissionais da saúde.
Durante visita a um hospital infantil em Havana, jornalistas da CBS News encontraram famílias aguardando atendimento médico enquanto profissionais relatavam dificuldades para obter medicamentos necessários ao tratamento de crianças.
A escassez atinge diferentes áreas do sistema público de saúde, historicamente reconhecido pela ampla cobertura oferecida à população cubana.
Sem acesso regular aos medicamentos distribuídos pelo Estado, muitos moradores passaram a depender de doações ou de redes comunitárias.
Segundo reportagem da Associated Press, apenas cerca de um terço dos 603 medicamentos incluídos na lista básica do sistema farmacêutico cubano estava disponível.
Entre os fatores associados à escassez estão a falta de matérias-primas importadas, dificuldades logísticas e limitações financeiras.
Farmácias comunitárias se tornam alternativa para pacientes
Diante da falta de remédios nas unidades oficiais, iniciativas voluntárias passaram a distribuir medicamentos gratuitamente.
A aposentada Sara Emilia Marquez contou à CBS News que depende de doações para manter seu tratamento.
Segundo ela, medicamentos que deveriam ser disponibilizados mensalmente pelo sistema público passaram a chegar apenas uma vez a cada três meses — quando estavam disponíveis.
Outros moradores recorrem ao mercado informal, onde os produtos podem ser vendidos por valores incompatíveis com a renda de grande parte da população.
As redes comunitárias recebem contribuições de moradores, organizações humanitárias e viajantes, tentando atender pacientes que não conseguem obter os tratamentos necessários.
Preço do pão dispara e salários perdem poder de compra
A crise não se limita à energia e à saúde.
Os preços dos produtos básicos também sofreram aumentos expressivos, agravando as dificuldades financeiras da população.
Segundo a CBS News, o preço do pão em determinadas localidades de Havana chegou a ficar dez vezes maior ao longo de 2026.
Em uma fila para comprar alimentos, uma moradora relatou que precisava fazer cada pão durar pelo menos dois dias.
O problema se torna ainda mais grave para trabalhadores remunerados pelo Estado, cujos salários podem representar menos de US$ 20 mensais, conforme os exemplos apresentados pela reportagem.
Aposentados também relatam longas esperas para receber seus benefícios, enquanto algumas famílias afirmam enfrentar dificuldades para garantir a alimentação diária.
Governo Trump amplia sanções contra banco estatal cubano

A pressão econômica americana ganhou um novo capítulo na quinta-feira (15), quando o governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra o Banco Internacional de Comercio S.A. (BICSA), instituição financeira estatal cubana.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que a instituição mantinha relações com o banco iraniano Karafarin, alvo de sanções americanas.
A medida foi formalizada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC).
O governo cubano rejeitou as acusações e classificou a instituição como legítima, argumentando que as restrições representam mais uma tentativa de pressionar economicamente a população.
Segundo as regras divulgadas, instituições estrangeiras receberam orientações para encerrar determinadas operações envolvendo o banco até 14 de novembro de 2026.
Washington e Havana divergem sobre responsabilidade pela crise
O governo Trump sustenta que as medidas são necessárias para pressionar o sistema político cubano e estimular mudanças econômicas e institucionais.
Já as autoridades de Havana responsabilizam o bloqueio americano por parte significativa das dificuldades enfrentadas pelo país e classificam as sanções como uma forma de punição coletiva.
A crise, entretanto, envolve diferentes fatores, incluindo as restrições externas, problemas de gestão econômica, baixa produtividade e deterioração da infraestrutura.
Nos últimos meses, o governo cubano anunciou reformas destinadas a ampliar a participação do setor privado, mas descartou mudanças no modelo político de partido único.
Apesar de manifestações de disposição para negociar, não foram anunciados avanços decisivos nas conversações entre os dois governos.
Crise humanitária continua sem solução imediata
Com o fornecimento de combustível limitado e a economia pressionada, Cuba enfrenta dificuldades para garantir serviços essenciais à população.
Enquanto Washington mantém sua estratégia de sanções, moradores da ilha dependem cada vez mais de iniciativas comunitárias para obter alimentos e medicamentos.
O desafio das autoridades cubanas é restabelecer o abastecimento energético, melhorar as condições do sistema de saúde e recuperar o poder de compra das famílias.
Sem avanços diplomáticos ou econômicos significativos, a população permanece exposta aos efeitos de uma crise que ultrapassa o setor energético e compromete aspectos fundamentais da vida cotidiana.

