A Braskem entrou com pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para renegociar uma dívida de cerca de R$ 54 bilhões, segundo reportagem do UOL. A maior parte do valor está em dólares, e a companhia ganhou 90 dias de proteção para concluir um plano de reestruturação junto aos credores.
O processo foi protocolado nas primeiras horas desta segunda-feira, 24. Com o pedido, a petroquímica abre uma nova etapa nas negociações para alterar condições de pagamento, incluindo prazos e valores de compromissos financeiros.
O que aconteceu
A Braskem recorreu à recuperação extrajudicial para tentar reorganizar parte de sua dívida fora de um processo tradicional de recuperação judicial. Apesar disso, o procedimento ainda depende de homologação pela Justiça.
A recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie débitos diretamente com credores, mas o acordo precisa cumprir etapas formais. No caso da Braskem, a companhia precisa obter um terço de aprovação junto aos credores para avançar.
Depois da homologação, a empresa terá 90 dias para apresentar e aprovar o plano de reestruturação. Nessa fase, a Braskem precisará da maioria dos votos dos credores.
A dívida em negociação é de cerca de R$ 54 bilhões. Segundo a reportagem, os maiores credores são detentores de títulos, entre eles BNDES, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.
Negociação com credores
A Braskem afirmou que intensificou as conversas com credores nas últimas semanas, mas não conseguiu chegar a um formato para a reestruturação. A empresa também disse que buscou uma solução negociada antes de pedir recuperação extrajudicial ou adotar outro mecanismo.
Os credores chegaram a apresentar propostas indicativas e sem caráter vinculante. Uma proposta sem caráter vinculante é uma sinalização inicial, que não obriga as partes a fechar o acordo nos termos apresentados.
A companhia e seus assessores financeiros e jurídicos analisaram alternativas para a renegociação. Entre as opções avaliadas estavam uma possível capitalização e o uso de ativos como garantia.
As negociações envolvem detentores e gestores de notas seniores e debêntures emitidas ou garantidas pela empresa. Esses instrumentos são formas de dívida usadas por companhias para captar recursos no mercado.
A manifestação à Comissão de Valores Mobiliários ocorreu depois de notícia do Times Brasil de que a petroquímica estaria se preparando para pedir recuperação extrajudicial.
Proteção judicial
Antes do pedido de recuperação extrajudicial, a Braskem havia conseguido tutela judicial que suspendeu por 60 dias determinadas execuções e bloqueios de bens. Esse prazo estava perto do fim e vencia nesta semana.
A medida havia sido concedida pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Segundo a reportagem, a decisão ocorreu diante da pressão sobre a liquidez da petroquímica.
Liquidez, nesse caso, é a capacidade da empresa de cumprir compromissos financeiros no prazo. A fonte informa que a Braskem enfrenta dificuldades financeiras e negocia uma reestruturação mais ampla de sua dívida.
Nos Estados Unidos, a Braskem e suas controladas pediram o reconhecimento da tutela brasileira em junho. Quatro dias depois, a Justiça americana concedeu de forma preliminar um automatic stay, que é uma suspensão automática de medidas de cobrança, pelo mesmo prazo da decisão brasileira.
Impasse nas conversas
A empresa disse que a negociação chegou a um impasse. Em fato relevante divulgado em junho, a petroquímica informou que as negociações privadas tinham estancado após trocas de propostas com um comitê de investidores.
Esse comitê era formado por titulares de notas seniores e debêntures. Segundo a Braskem, os investidores haviam apresentado uma contraproposta durante as conversas.
No fato relevante citado na reportagem, a companhia afirmou que a tutela de urgência e a mediação tinham escopo limitado e estritamente financeiro.
A Braskem também informou que essas medidas não abrangem obrigações com fornecedores, clientes e demais partes relacionadas. Segundo a empresa, esses compromissos permanecem vigentes e continuam sendo cumpridos normalmente, conforme os contratos.
Endividamento até 2028
A companhia detalhou seu endividamento até 2028 em documento citado pelo UOL. Segundo esse material, o serviço da dívida chegaria a US$ 3,7 bilhões entre julho de 2026 e dezembro de 2027.
Além disso, haveria mais US$ 1,3 bilhão em janeiro de 2028.
O serviço da dívida corresponde aos pagamentos ligados aos compromissos financeiros da empresa, como juros e parcelas de dívidas. A fonte não detalha todos os contratos envolvidos nesses valores.
Com a proposta da Braskem, o caixa ficaria positivo em US$ 1,76 bilhão em janeiro de 2028. Esse cenário considerava a repactuação da dívida e a manutenção da capacidade instalada atual da companhia no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa até 2029.
Sem a repactuação, o cenário apresentado indicava uma retirada líquida de US$ 3,25 bilhões do caixa.
Resultado financeiro
A Braskem registrou lucro de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre, após reverter prejuízo em lucro. Em dólares, o ganho informado foi de US$ 664 milhões.
No mesmo período do ano passado, a empresa havia registrado prejuízo de US$ 45 milhões, equivalente a R$ 267 milhões.
A receita líquida da Braskem somou US$ 4,30 bilhões no trimestre. O valor representa alta de 37% sobre os US$ 3,15 bilhões registrados no segundo trimestre de 2025.
Em reais, a receita avançou 22%, para R$ 21,72 bilhões. A reportagem informa que a diferença entre os percentuais ocorreu porque o real se valorizou frente ao dólar no período, com a taxa média de câmbio caindo de R$ 5,67 para R$ 5,05.
No acumulado do semestre, a receita chegou a US$ 7,25 bilhões, alta de 12% sobre os US$ 6,48 bilhões registrados em igual período de 2025.
Nota de crédito e Braskem Idesa
A Fitch rebaixou a nota de crédito da Braskem de C para RD, classificação de inadimplência restrita. Segundo a agência, a decisão foi atribuída ao não pagamento de juros sobre obrigações financeiras.
A reportagem informa que esse não pagamento ocorreu enquanto a empresa buscava preservar liquidez.
A Braskem Idesa, parceria da companhia com o Grupo Idesa, do México, pediu Chapter 11 nos Estados Unidos em 18 de agosto. O pedido foi feito como parte de um acordo para reduzir uma dívida em mais de US$ 920 milhões, o equivalente a R$ 4,78 bilhões.
Mudanças no controle
A reportagem também informa que a gestora de private equity IG4 e a Petrobras são co-controladoras da Braskem.
Na nova estrutura de controle, a IG4, por meio do fundo de investimento Shine, passou a deter 50,1% das ações com direito a voto da companhia. A Petrobras ficou com 47%.
A Novonor, antiga controladora, manteve 4% das ações sem direito a voto.
Segundo a matéria, o acordo marcou o fim de um longo processo, depois de diversas tentativas frustradas da Novonor de vender a petroquímica.
A reportagem também cita que a Braskem enfrenta margens apertadas no setor petroquímico e passivos contínuos relacionados ao afundamento do solo em Maceió.

