Depois de encerrar 2025 com resultados históricos, o agronegócio brasileiro voltou a ser um dos principais motores da economia no início de 2026. A agropecuária registrou crescimento de 2% no primeiro trimestre, na comparação com os últimos três meses do ano passado, contribuindo de forma importante para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
O desempenho foi impulsionado principalmente pela forte produção de grãos, especialmente a soja, cuja colheita ocorre majoritariamente nos primeiros meses do ano. No entanto, especialistas alertam que esse cenário positivo pode não se manter ao longo dos próximos meses.
Economistas e analistas do setor avaliam que uma combinação de fatores climáticos e econômicos poderá reduzir o ritmo de crescimento do campo, com impactos que podem se estender até 2027.
Entre os principais desafios apontados estão a possível formação de um forte fenômeno El Niño, a alta dos preços dos fertilizantes e o aumento do custo do crédito rural.
El Niño preocupa produtores em todo o país
A principal preocupação do setor neste momento é a possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.

Existe alta probabilidade de que o fenômeno seja oficialmente confirmado entre junho e julho deste ano. Caso isso aconteça, os efeitos poderão atingir diversas regiões produtoras do Brasil.
O El Niño costuma provocar padrões climáticos extremos. Enquanto parte do Centro-Norte do país enfrenta períodos prolongados de seca, estados do Sul geralmente registram volumes excessivos de chuva.
Para a agricultura, essa combinação representa um desafio significativo. Secas podem comprometer o desenvolvimento das lavouras e atrasar o plantio, enquanto o excesso de precipitação dificulta operações de campo e aumenta o risco de perdas na produção.
Especialistas destacam que praticamente todas as culturas agrícolas brasileiras apresentam algum nível de vulnerabilidade aos efeitos do fenômeno.
Lembranças de 2014 e 2015 preocupam o setor

A preocupação dos produtores é reforçada pela memória de eventos anteriores associados ao El Niño.
Analistas lembram que o último episódio de grande intensidade ocorreu entre 2014 e 2015, período que ficou marcado por severos impactos sobre a produção agrícola brasileira.
Na época, diversas regiões registraram perdas expressivas e o país enfrentou uma das maiores quebras de safra de sua história recente.
Por esse motivo, a possibilidade de um novo evento climático semelhante vem sendo acompanhada de perto por agricultores, cooperativas, empresas do setor e instituições financeiras ligadas ao agronegócio.
Embora ainda exista incerteza sobre a intensidade que o fenômeno poderá atingir, especialistas consideram prudente preparar estratégias para minimizar eventuais prejuízos.
Impactos mais fortes devem aparecer em 2027
Apesar das preocupações, os efeitos mais significativos do El Niño não devem atingir imediatamente a produção agrícola deste ano.
Grande parte da safra atualmente em desenvolvimento foi plantada antes da confirmação do fenômeno, reduzindo os riscos imediatos para as colheitas de 2026.
O principal impacto deverá ocorrer durante os próximos ciclos de plantio.
Segundo especialistas, atrasos causados por secas ou excesso de chuva podem comprometer o calendário agrícola, afetando diretamente a produtividade das safras que serão colhidas em 2027.
Regiões estratégicas para o agronegócio nacional aparecem entre as mais vulneráveis.
O Matopiba, área formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, pode sofrer com períodos de estiagem prolongada. A região se tornou um dos principais polos de produção de soja, milho e algodão do país.
Estados como Mato Grosso e Pará também estão entre os que podem enfrentar impactos relevantes caso o cenário climático se confirme.
Fertilizantes ficam mais caros e elevam custos

Além das preocupações climáticas, produtores enfrentam outro desafio importante: a alta dos preços dos fertilizantes.
O aumento está relacionado principalmente às tensões geopolíticas no Oriente Médio, que vêm pressionando cadeias globais de fornecimento de insumos agrícolas.
Embora os efeitos sobre os preços dos alimentos ainda não sejam imediatos, os agricultores já sentem os impactos no caixa.
Isso ocorre porque os fertilizantes adquiridos atualmente serão utilizados nas próximas safras. Assim, os custos mais elevados já fazem parte do planejamento dos produtores para os próximos ciclos agrícolas.
Em alguns casos, produtores podem optar por reduzir a quantidade aplicada ou buscar produtos menos concentrados para diminuir despesas.
No entanto, ambas as alternativas costumam resultar em menor produtividade ou aumento de outros custos operacionais.
Juros altos também pressionam o campo
Outro fator que preocupa especialistas é o atual nível das taxas de juros.
Com o crédito mais caro, produtores enfrentam maior dificuldade para financiar investimentos, custear operações e adquirir insumos necessários para manter elevados níveis de produtividade.
Segundo economistas, o encarecimento do financiamento rural pode levar agricultores a reduzir áreas plantadas ou adotar tecnologias menos eficientes para reduzir despesas.
Essa situação afeta especialmente médios e pequenos produtores, que dependem mais intensamente de linhas de crédito para financiar suas atividades.
O aumento do endividamento rural também surge como um dos pontos de atenção para os próximos anos.
Fim de um ciclo excepcional
Os desafios atuais contrastam com o cenário extremamente favorável observado recentemente.
Em 2025, o agronegócio brasileiro registrou crescimento de aproximadamente 12%, resultado considerado excepcional por especialistas do setor.
A combinação entre clima favorável, recordes de produção agrícola e elevado volume de abates na pecuária criou um ambiente altamente positivo para o desempenho do campo.
Agora, porém, a situação é diferente. Além dos riscos climáticos, o mercado internacional apresenta ampla oferta de grãos e estoques elevados, fatores que pressionam os preços das commodities agrícolas.
A valorização do real frente ao dólar também reduz a rentabilidade de produtos exportados, como soja, milho, algodão e café.
Diante desse conjunto de fatores, especialistas avaliam que o agronegócio deverá continuar sendo um dos pilares da economia brasileira, mas dificilmente repetirá os resultados extraordinários observados nos últimos anos. O setor segue forte, porém enfrenta um cenário mais desafiador, marcado por incertezas climáticas, custos mais elevados e maior pressão sobre a rentabilidade dos produtores.

