A alta do petróleo provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã já ultrapassou os mercados de energia e começa a atingir diretamente consumidores, empresas e governos. O barril voltou a superar US$ 100, enquanto o aumento dos combustíveis desencadeou protestos e paralisações em países como Síria, Guatemala, Portugal e Filipinas.
O impacto ocorre porque o petróleo está presente em praticamente toda a cadeia econômica. Além de abastecer carros, caminhões, aviões e máquinas agrícolas, seus derivados são utilizados no transporte de mercadorias e em diferentes atividades industriais. Quando o combustível fica mais caro, parte desse aumento pode chegar aos preços de outros produtos e serviços.
Síria enfrenta aumento de até 40%
Na Síria, a pressão sobre os consumidores foi particularmente rápida. O governo aumentou temporariamente o preço do diesel para 175 libras sírias por litro, alta de aproximadamente 40%. A gasolina também subiu mais de 25%.
O governo atribuiu os reajustes à elevação dos preços internacionais dos combustíveis e à manutenção da refinaria de Baniyas, a maior do país. A paralisação da unidade aumentou a necessidade de importação justamente em um momento de preços elevados no mercado internacional.
A reação veio rapidamente. Manifestantes bloquearam estradas, queimaram pneus e protestaram contra os aumentos. Segundo a análise da ACLED citada pela CNN, as reclamações relacionadas ao combustível e ao poder de compra também passaram a se transformar em críticas ao governo.
Da Europa à Ásia, o combustível virou problema econômico
Em Portugal, motoristas realizaram manifestações contra o aumento dos combustíveis e do custo de vida. Em Espinho, cerca de 80 pessoas participaram de um protesto no sábado (12). O governo anunciou posteriormente medidas de apoio a transportadores de mercadorias, taxistas, bombeiros e ao setor social.
Na França, cerca de 50 pescadores bloquearam um depósito de combustível em Fos-sur-Mer, no sul do país. Os manifestantes reclamam que a combinação entre combustível mais caro e receitas insuficientes está pressionando o setor pesqueiro.
Nas Filipinas, trabalhadores do setor de transporte entraram em greve para exigir subsídios e redução de impostos sobre os combustíveis. Apenas nesta semana, a gasolina subiu 5,68 pesos por litro, enquanto diesel e querosene também sofreram novos reajustes.
Países mais dependentes do petróleo sentem primeiro
O problema tende a ser mais intenso em países que dependem fortemente da importação de petróleo e gás. Bangladesh, por exemplo, importa mais de 90% do petróleo que utiliza, grande parte proveniente do Oriente Médio.
A escassez de gás natural liquefeito também provocou racionamento de energia e interrupções temporárias em fábricas de roupas, um dos principais setores da economia do país. Algumas empresas passaram a utilizar diesel como alternativa, mas encontraram o combustível também mais caro.
Na Indonésia, moradores de Makassar relataram falta de gás de cozinha, apagões e racionamento de gasolina. Motoristas chegaram a enfrentar longas filas nos postos e um sistema de distribuição baseado no final da placa dos veículos.
O dilema dos governos
A disparada do petróleo coloca os governos diante de uma escolha difícil. Repassar integralmente o aumento para os consumidores pode acelerar a inflação e aumentar o custo de transporte e alimentação. Por outro lado, ampliar subsídios reduz o impacto imediato sobre a população, mas aumenta a pressão sobre os cofres públicos.
A questão é especialmente delicada para países que já possuem elevado endividamento. A alta dos combustíveis pode obrigar governos a gastar mais justamente quando suas contas públicas têm menos espaço para absorver novos subsídios.
O efeito também pode chegar às empresas. Transportadoras, pescadores, agricultores, motoristas de aplicativos e indústrias que dependem de combustíveis enfrentam custos maiores, reduzindo margens ou repassando parte da despesa aos consumidores.
Uma crise que ultrapassa o preço da gasolina
A atual pressão energética mostra como uma interrupção no fornecimento de petróleo pode se transformar rapidamente em um problema econômico global. O impacto começa nos mercados de energia, passa pelos custos de transporte e produção e pode terminar no orçamento das famílias.
Com o petróleo novamente acima de US$ 100 por barril e as rotas de abastecimento do Oriente Médio ainda sob pressão, novos aumentos podem continuar afetando países importadores, empresas e consumidores.

