Em 2025, a soja ocupou 47,6 milhões de hectares no Brasil, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE. É uma área maior que a da Espanha e equivale a cerca de metade de toda a área plantada com lavouras temporárias do país (95,5 milhões de hectares). Nenhuma outra cultura brasileira tem esse peso territorial. Mas essa área não se espalha de forma uniforme. Ao mapear a soja município por município, o que aparece é um padrão muito concentrado: uma grande mancha contínua que vai do Sul ao Centro-Oeste e avança pelo Matopiba, cercada de vazios.
Figura 1. Área plantada de soja no Brasil (ha)

Uma mancha, não um país inteiro
Dos 5.564 municípios do Brasil, 2.642 (47,5%) tem área plantada de soja. Os outros 2.922 não têm a cultura ou não têm dado. A distribuição entre os que plantam também é muito desigual: a mediana é de apenas 4 mil hectares por município, enquanto os maiores passam de 500 mil.
A concentração fica ainda mais clara por estado:
- Mato Grosso: 12,8 milhões de hectares (26,8% do total nacional)
- Rio Grande do Sul: 6,8 milhões (14,3%)
- Paraná: 5,8 milhões (12,3%)
- Goiás: 5,1 milhões (10,7%)
- Mato Grosso do Sul: 4,3 milhões (9,0%)
Esses cinco estados reúnem cerca de 73% de toda a área de soja do país. Só os três primeiros respondem por mais da metade.
Como a soja chegou até aqui
A soja é originária do Leste da Ásia e chegou ao Brasil no fim do século XIX, mas só virou protagonista no século XX. Primeiro se firmou no Sul, em áreas de clima mais próximo ao das regiões de origem e por causa da expansão da suinocultura e da produção de óleo. A partir dos anos 1970, o cenário mudou. A pesquisa agropecuária desenvolveu variedades adaptadas a latitudes menores, a correção da acidez dos solos tornou o Cerrado cultivável e o Estado incentivou a ocupação do Centro-Oeste.
O resultado é visível no mapa: a produção saiu do Sul e ocupou os grandes chapadões de relevo plano do Cerrado, ideais para a mecanização. Nas últimas décadas, a fronteira agrícola avançou ainda para o chamado Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), região que também aparece com destaque no mapa.
Os campeões municipais
Entre os municípios, a liderança em 2025 ficou no oeste da Bahia:
- São Desidério (BA): 554.208 ha
- Sorriso (MT): 550.000 ha
- Formosa do Rio Preto (BA): 533.851 ha
- Rio Verde (GO): 428.500 ha
- Nova Mutum (MT): 415.000 ha
Mato Grosso domina o restante da lista de maiores: Querência, Campo Novo do Parecis, Diamantino, Paranatinga e Sapezal completam o top 10 ao lado de São Desidério, Sorriso e Nova Mutum. Apenas 43 municípios têm mais de 186 mil hectares de soja, e eles somam cerca de 27% da área nacional. Os 100 maiores respondem por 42%.
Curiosidades
- Dois municípios baianos no topo. São Desidério e Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, superam Sorriso, conhecida por muito tempo como a “capital nacional da soja”.
- Um estado, 131 municípios. Mato Grosso tem 131 municípios com soja, e o estado sozinho planta mais soja que o Rio Grande do Sul e o Paraná.
- Bahia concentrada. A Bahia tem apenas 24 municípios com soja, mas eles somam mais de 2 milhões de hectares, uma área maior que a de estados com centenas de municípios produtores.
- Soja de norte a sul. Do Rio Grande do Sul ao Maranhão, a cultura aparece em todos os biomas, com maior presença no Cerrado, nos Pampas e na Mata Atlântica.
Por que isso importa
Mapear a soja é mais que olhar para a agricultura. A distribuição da cultura ajuda a entender a ocupação do território, a pressão sobre biomas como o Cerrado, a logística de escoamento por rodovias, ferrovias e portos, e o peso econômico de regiões inteiras. Quando a área de uma única cultura é quase metade das lavouras temporárias do país, ela passa a organizar o espaço geográfico.
Fonte dos dados: IBGE, Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), tabela 1612, 2025. Mapa: elaboração própria no QGIS.

